20.03.2007 Programas Ações Estratégicas Povos indígenas C.N.P.I. Mapas
 
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PROJETO GUARANI KAIOWÁ

O PKG/MS – Projeto Guarani do Mato Grosso do Sul tem como atividade principal, a documentação de dados sobre a territorialidade dos dois sub-grupos Guarani, os Kaiowá e os Ava Guarani (estes também denominados de Ñandeva). Os dados são coletados através de entrevistas gravadas em vídeo, MD e anotações de campo e tem como objetivo final subsidiar o processo de recuperação do território Guarani, especialmente no passo da Identificação das terras ou tekoha.

Como atividade inerente a esse processo, a discussão de procedimentos administrativos e judiciais com os grupos indígenas interessados é a forma como a equipe realiza as suas ações, tanto de acompanhamento, como de troca de informações, que a equipe considera importantes para as necessárias correções para garantir os direitos territoriais.

As atividades de documentação, além dos dados históricos colhidos através de depoimentos dos mais velhos principalmente, sobre a ocupação tradicional do território, também enfoca-se sobre as experiëncias que os grupos tem vivido em suas lutas concretas no processo de reivindicação desse direito. Atos de violências são geralmente cometidas contra eles que a equipe leva ao conhecimento da Procuradoria da República, entre outros temas passíveis de denúncias.

O trabalho de levantamentos de dados preliminares obedece critérios de escolha determinados pelas relações anteriores de envolvimento da equipe com o o grupo indígena e o contexto da reivindicação. Assim, um caso é escolhido como prioridade e acompanha-se aquelas que já se cumpriram esta etapa de coleta de dados. Paralelamente e ao mesmo tempo a equipe passa a estabelecer contato com o outro caso que será estudado no ano seguinte. Elege–se apenas um caso prioritário a cada ano, período em que realiza-se os contatos com as famílias extensas; as entrevistas; reuniões localizadas entre as famílias por região; reuniões com toda a comunidade, geralmente duas por ano. Ao final elabora-se um pequeno relatório contendo os principais dados sobre o tekoha, diagrama de parentesco e mapa e encaminha-se à Funai.

Em 1999, quando iniciou-se este programa, haviam várias comunidades dispersas em toda a região que demandavam por terras. O coordenador do Programa já tinha estabelecido relações com várias delas, sendo que um dos principais locais de concentração de demandas estava na área de Limão Verde, município de Amambai. Esta situação tinha explicação: na cidade do mesmo nome está localizada a Administração Regional da Funai, o que motivou e atraiu aqueles grupos de famílias que reivindicavam os seus tekoha. Diziam eles que era para facilitar o contato com as autoridades responsáveis pela terra.

Os primeiros casos foram Ka’ajari, Sombrerito e Arroyo Corá. Os dois primeiros habitavam a área de Limão Verde e o último esteve em vários lugares depois que foram expulsos da terra: periferia da cidade de Takuru; aldeia de Ramada; Limão Verde; Guasuty e, finalmente, foram por sua própria conta para a terra reivindicada. Esse processo durou vários anos, até a identificação/delimitação do tekoha (TI Arroio-Korá) em 08/2004, com 7.205ha. Ka’ajri ainda não teve, sequer, iniciada sua identificação e Sombrerito, iniciada em 2003, teve sua identificação/delimitação publicada em 07/2006, com 12.608ha.

Principalmente nas duas últimas décadas, tem-se intensificado os conflitos na região entre comunidades indígenas e proprietários de terras. A forte demanda por terras tem provocado clima de grande tensão e, não raras vezes, essas comunidades tem sido vítimas de grandes violências por parte de jagunços contratados pelos fazendeiros proprietários. A imprensa escrita e televisiva locais, políticos e forças policiais tem dado guarida a essas ações, contribuindo ainda mais para agravar o clima já extremamente tenso em vários municípios do Estado.

Essa situação de disputas por terras e o enorme volume de casos represados há décadas por uma política indigenista oficial equivocada e omissa (ainda nos dias de hoje), resultou em forte clima de tensão por todo o Mato Grosso do Sul. O governo deveria implementar uma política clara e efetiva para que se torne viável o encaminhamento de soluções aos conflitos entre índios e fazendeiros. As comunidades indígenas já não esperam por providências do governo que, tímidas e pouco efetivas, dão ensejo ao retorno aos tekoha - lugar onde se realiza o seu modo de ser e de viver conforme seus usos e costumes: a aldeia - como a única alternativa de pressão às autoridades responsáveis, o que os expõem a grandes riscos, inclusive de vida. É o que tem ocorrido na maioria dos casos.

A pressão populacional nas reservas (terras conseguidas Serviço de Proteção ao Índios – SPI junto ao Estado), onde se concentram as comunidades expulsas de suas terras, são os locais onde se originam as demandas fundiárias. Os níveis de pressão interna são tão elevados que os membros das comunidades tem se organizado para levar a cabo a proposta de retorno ao tekoha, já que providências de identificação e delimitação de terras não são efetivadas através de canais anteriormente estabelecidos entre lideranças indígenas e autoridades governamentais. Cria-se assim, uma situação de conflito que os órgãos públicos tampouco tem capacidade de solucionar. Resultam daí, mesmo após a declaração de terra indígena do Ministério da Justiça, acordos que obrigam as comunidades indígenas habitarem espaços extremamente exíguo, insuficiente até mesmo para satisfazerem suas necessidades mais primárias, como água e lenha para cozinhar. Esses acordos foram realizados com a participação de todas as autoridades responsáveis pela resolução do problema fundiári, quais são: Justiça Federal, Ministério Público Federal (à epoca assessorado por advogados do CIMI), Funai e fazendeiros através de seus advogados e lideranças das respectivas comunidades.

Hoje em dia, como se pode observar, os guarani lutam para se constituírem em protagonistas do que se chama de “entrar nos tekoha”. Esta prática é uma clara demonstração de falência da política indigenista oficial e demais canais institucionais de resolução do problema fundiário no Mato Grosso do Sul.
Durante as discussões da equipe sobre métodos de como levantar os dados, avaliou-se que não é possível de se pautar sobre decisões tomadas pela Funai. A não efetivação mínima da pauta estabelecida com as lideranças indígenas tem comprometido as decisões que a equipe tem tomado com aquelas comunidades. Após o levantamento das três comunidades acima citadas, a equipe hoje realiza os levantamentos e a documentação independentemente das decisões que eventualmente a Funai está tomando com as lideranças.

No aspecto da documentação o programa tem envidado esforços para capacitação de índios para a realização de entrevistas com pessoas chaves, buscando conseguir dados documentados sobre aspectos que são relevantes, principalmente ao da territorialidade. Hoje estão trabalhando dois representantes: um da área de Jakarey e outra de Amambai.

Além das atividades de documentação e levantamentos de dados dos casos fundiários, o Programa conta também com dois Micro-projetos (MP) ambientais. Um na área de Pirajuy e outro na de Guasuty.
No Pirajuy já vem sendo realizado uma experiência há desde 2001, que tem dois aspectos básicos: de reflorestamento e adubação verde de solo.

As experiências de reflorestamento tem tido melhor aceitação e as atividades tem tido sucesso mais que razoáveis. Isto porque a experiência tem utilizado a erva-mate que é uma planta nativa da região e cujo manejo os guarani conhecem muito bem, além de constituir-se em produto de seu consumo diário. E o aspecto que mais se destacou nesses anos de atividades com a família do Mingo (José Moralez) foi o problema do manejo com o fogo, aspecto este que se constituiu o foco do todo o MP. De nada adiantava realizar tecnicamente o reflorestamento se a área considerada estava sob a ameaça constante de queimadas, muito frequente no período após inverno.

No aspecto da adubação do solo a implementação do MP tem sido mais problemática. Talvez por não conhecer as culturas com as quais se está tentando lidar, ou porque não há nenhuma experiência conhecida entre eles com essas técnicas. O que se tem notado é que com a mamona, que eles já conhecem, as experiências (ainda muito tímidas) tem dado mais resultados. É bastante boa a experiência de plantação de bananeira com mamona, dentro de uma técnica um pouco próxima de agro-floresta.
Na área de Guasuty está-se fazendo uma experiência com banco de sementes, aproveitando a iniciativa que já tinha com a família de Gilberto. Por iniciativa dele e do rezador Júlio, e a concordância do “capitão” Arapongas (porque é necessário derrubar mata de floresta), eles tem produzido o milho branco (avati moroti), hoje já raro na maioria das aldeias. A partir dessa experiência o PKG realiza incrementar o banco de semente de milho branco e ampliar para outras sementes, em situação igual ou semelhante, espécies de tubérculos e feijões que tem-se tornado também raridade.

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