
As informações quanto à época
do primeiro contato dos Matis com funcionários
da FUNAI variam de 25 de agosto de 1975 a 21 de dezembro
de 1976, através de um primeiro contato com
uma mulher e uma criança de colo em um tapirí no
igarapé Aurélio, afluente da margem
direita do alto Itui. A partir desse período,
os Matis começam a empreender sucessivas visitas
ao Posto da FUNAI estabelecido no alto Ituí para
obterem facões, machados, cachorros, galinhas,
etc. Em 1978 servidores da FUNAI visitam as malocas
Matis passando alguns dias entre eles. A partir desse
momento os contatos tornam-se mais freqüentes.
O número populacional dos Matis
na época do contato possui estimativas muito
variadas: de 150 pessoas a cerca de 300 pessoas.
Os próprios Matis falam que eram muitos antes
do contato e que vários adultos morreram de
uma febre, mas faltam dados para uma estimativa mais
correta.
Viviam tradicionalmente em grupos familiares
em 5 malocas distantes entre si, com população
variável.
Maloca do rio Coari,
Maloca do rio Branco,
Maloca do igarapé Boeiro,
Maloca do igarapé Jacurapá,
Maloca entre os igarapés Jacurapá e Boeiro.
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Aldeias
Matis
Foto/R.Franciscato |
A presença de madeireiros
e seringueiros em mau estado de saúde e sem
assistência nas proximidades dos Matis recém
contatados, e mesmo a falta dos devidos cuidados
no contato por parte dos funcionários do Posto,
contagiaram os Matis desde cedo e a partir de 1978
começam as epidemias de gripe, tosse, disenteria,
etc. Entre 1976 e 1980 foram notificados 12 mortes
ocasionadas por várias doenças e entre
junho de 1981 e junho 1982 morreram 48 Matis devido
a duas epidemias de gripe que logo se transformava
em pneumonia . Em apenas um ano, a população
Matis passou de 135 para 87 pessoas com a morte de
35% de sua população. Em 1985, três
anos após essas epidemias um censo populacional
realizado pela Campanha Javari revela que apenas
sete pessoas possuíam mais de 40 anos, e somente
um homem e duas mulheres acima de 50 anos.
Devido ao grande número de
mortes em cada grupo familiar, os Matis tiveram que
se reestruturar, adaptando suas regras de casamento
e relações sociais e políticas
entre os diversos grupos. Com isso os sobreviventes
formaram basicamente dois grupos que se mantêm
até hoje.
Indagado sobre a região de
origem do grupo, o velho Binã afirmava que
antes moravam entre o Curuça e o Ituí sem
saber dizer quando atravessaram para a margem direita
. Os sobreviventes da epidemia não se lembravam,
todos os mais velhos haviam morrido e a memória
do grupo remonta a época em que já viviam
na área compreendida entre os rios Ituí,
Itaquai e Branco, (afluente da margem esquerda do
Itaquaí).
A partir do início do contato
os Matis começam a estabelecer relações
com os Marubo que funcionavam como interpretes apesar
de falarem línguas diferentes, mas ambas do
grupo lingüístico Pano. Várias
famílias Marubo desceram do alto Ituí e
se fixaram no PIA localizado no médio curso
daquele rio, atraídos pela presença
da FUNAI, intensificando o contato com os Matis.
As conseqüências dessa aproximação
entre um grupo - os Marubo com mais de um século
de contato com a sociedade envolvente - e os Matis
recém-contatados, se fizeram sentir em relação
a saúde e nas interferências culturais.
Em 1982, na tentativa de solucionar
os problemas de interferência causados por
não-índios e pelos Marubo, a FUNAI
decide transferir os sobreviventes Matis e as instalações
do Posto para o igarapé Boeiro, onde passam
a residir em duas malocas (Melatti, 1983). No igarapé Boeiro
os Matis passam por um período de grande escassez
alimentar devido a falta de roças levando-os
a roubar, várias vezes, alimentos das roças
dos ribeirinhos e dos Marubo do antigo posto. Além
disso, o referido igarapé era um local difícil
para se obter veneno para as setas de zarabatanas
e o tatchi um chá tradicional
e de grande importância espiritual. O inicio
desse processo de sedentarização e
concentração populacional em um único
local diminuiu a mobilidade do grupo e criou um processo
de maior conflito entre os subgrupos. Em 1987 os
Matis se mudam para uma área próxima
ao Rio Novo
Enquanto a estrutura tradicional
da Funai de Atalaia do Norte vai se tornando cada
vez mais sucateada e ineficiente, o rio Ituí vai
se povoando rapidamente com colocações
de seringueiros e jiraus maiores, além da
invasão de centenas de madeireiros no território
Matis (Melatti, 1983). Este cenário começa
a se alterar com a Funai em 1987 instituindo o Departamento
de Indios Isolados e marcando o início de
uma nova política em relação
aos índios isolados (substituindo a política
de atração pela proteção);
em 1996 estabelecendo o Posto de Proteção
na confluência do Ituí e Itacoaí;
e demarcando em 1998 a Terra Indígena do Vale
do Javari. É importante ressaltar que a Campanha
pelo Vale do Javari, na época, teve um papel
importante na mobilização da sociedade
civil cobrando do estado brasileiro medidas efetivas
de proteção e assistência aos
povos indígenas do Vale do Javari.
Em 1993 os Matis se estabelecem
na margem esquerda do Ituí a montante do igarapé Jacurapá.
E em 1998 se sentindo cercados pelos Marubo do alto
Ituí, rio acima, e pelos Marubo do antigo
PI Ituí na foz do rio Novo, rio abaixo, além
da escassez de alguns recursos, constroem uma nova
aldeia no igarapé Aurélio, rio abaixo.
Vivem nesse local até hoje, distribuídos
em 3 grandes malocas na foz do igarapé Aurélio.
A primeira próxima a foz desse igarapé com
o rio Ituí, a segunda se localiza a 400 metros
a partir dessa outra maloca a montante do igarapé Aurélio
através de um varadouro e a terceira também
a uns 400 metros dentro da mata a partir da primeira,
sendo um grupo familiar que resolveu se distanciar
fisicamente dessa primeira maloca. Parece que hoje
como tentativa de evitarem os conflitos internos
do grupo, decorrentes da sedentarização
e concentração populacional, estão
se reorganizando com os chefes de cada família
voltando a construir suas malocas separadas, mas
próximas entre si.
Após o período trágico
e traumático de mortes decorrente desse contato
irresponsável da FUNAI, principalmente entre
os anos de 1981 e 1982 (que ocasionou toda uma enorme
geração de órfãos, atualmente
muito dos jovens adultos na faixa acima de 26 anos
são órfãos ou perderam grande
parte de seus parentes), sinais de recuperação
do grupo começam a aparecer. Passam de 87
pessoas em 1983 a 123 em dezembro de 1987 apesar
da ameaça de infertilidade devido a introdução
de gonorréia. Em 1995 já totalizam
176 e hoje estão em torno de 240 pessoas com
cerca de 50% da população constituída
por pessoas com menos de 16 anos sendo que em 1980,
um ano antes da grande epidemia, essa parcela da
população compreendia apenas 22% da
população total.
O contato constante com os Marubo
do Rio Novo de Cima, aldeia formada pelos Marubo,
trouxe novas alianças para eles mas também
fortes influências na sua vida cultural. É comum
nos discursos dos mais jovens a idéia de que Marubo é bom
e Matis é ruim, principalmente por estes
dominarem bem a relação com os não-índios
e pelos Matis passarem por um processo de baixa estima,
inclusive com várias jovens mulheres Matis
se apresentando e se pintando como verdadeiras mulheres
Marubo, abandonando o visual tradicional Matis.
Atualmente os Matis tentam participar
do novo cenário político da região
através do CIVAJA (Conselho Indígena
do Vale do Javari), através dos seus conselheiros
e das reuniões anuais; mas apesar de grande
esforço por parte deles encontram-se em desvantagem
diante dos outros grupos numericamente superiores
e com várias décadas de conhecimento
do mundo dos não-índios. Em parte compensam
isso através de alianças próprias
formadas através da Frente de Proteção
Etno-Ambiental do Vale do Javari, cujo Posto está instalado
na confluência dos rios Ituí-Itaquaí (ver
projetos).
Veja
a galeria de fotos do povo Matis. |