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         O Centro de Trabalho Indigenista – CTI, organização indigenista que atua na defesa dos direitos indígenas no Brasil desde 1979, torna público o presente pronunciamento, a respeito da violência do governo de Alan García ante os protestos indígenas ocorridos na localidade de Bagua, Peru, em 5 de junho de 2009.

         Nos últimos anos acompanhamos com preocupação a forma com que o governo do Peru tem conduzido o processo de “desenvolvimento” de sua região amazônica, apoiado sobretudo na exploração de recursos madeireiros e petroleiros. Ao longo deste processo não se respeitou efetivamente os direitos dos povos indígenas, garantidos pela Constituição peruana e por tratados internacionais como a Convenção 169 da OIT (ratificada pelo Estado peruano mediante a Resolução Legislativa nº 26253 de 02 de dezembro de 1993), o que foi denunciado inúmeras vezes por autoridades e organizações indígenas do Peru.

         O governo ignorou sistematicamente a voz destas populações, o que evidenciam os decretos legislativos propostos no âmbito da implementação do Tratado de Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos. O Congresso da República do Peru autorizou o Poder Executivo a regular aspectos relacionados à implementação do TLC, com o objetivo de criar as condições necessárias para a sua consolidação. No entanto, em sua interpretação o Executivo excedeu claramente os limites da referida delegação de faculdades outorgada pelo Congresso.

         Os decretos legislativos propostos ameaçam os direitos fundamentais dos povos indígenas: vulneram o direito das Comunidades Nativas (CNs) a seus territórios, uma vez que se propõe a modificação e afetação do regime jurídico das terras das CNs; não observam o direito a consulta participação dos povos indígenas em processos de exploração de recursos naturais em seus próprios territórios; vulneram os direitos à livre determinação e a autonomia e governo das comunidades indígenas.

         Apesar desta postura do atual governo, os povos indígenas amazônicos do Peru têm buscado o diálogo através de protestos pacíficos, intensificados a partir do ano de 2008. Motivado por interesses externos de transnacionais, expressos no TLC, o Presidente Alan García rechaçou com violência as sucessivas tentativas pacíficas dos povos indígenas amazônicos de dialogar com o governo e criminalizou autoridades indígenas.

         No ano de 2008 este governo já ordenara a captura e prisão de Antônio Iviche, presidente da Federación Nativa del Río Madre de Dios y Afluentes, FENAMAD, sob acusação de encabeçar protestos na cidade de Puerto Maldonado, no departamento de Madre de Dios. Repetindo a mesma estratégia, o governo peruano agora responsabiliza Alberto Pizango Chota, presidente da Asociación Interétnica para el Desarrollo de la Selva Peruana, AIDESEP, pelos últimos protestos na Amazônia peruana, que culminaram no massacre de Bagua. Desta maneira, o governo peruano deslegitimiza os povos indígenas como cidadãos peruanos que vivem na selva amazônica há milhares de anos e gozam de pleno direito a se manifestarem.

         Contrariamente à versão oficial, segundo a qual os protestos foram motivados por interesses externos, o que deixaram muito claro os povos indígenas amazônicos em suas manifestações foi a constatação de que o processo de “desenvolvimento” em curso só trouxe impactos negativos a suas comunidades e territórios. Interesses externos defende o governo de Alan García, ao sobrepor aos direitos constitucionais dos povos indígenas a privatização dos recursos naturais da selva peruana, exigência norte-americana para a consolidação do Tratado de Livre Comércio com o Peru.

         A violência em Bagua no último 5 de junho não foi um ato isolado, mas uma das conseqüências da atitude autoritária e irresponsável do governo de Alan García, que resultou em número ainda incerto de indígenas e policiais mortos. Portanto, expressamos nosso sincero pesar ao povo peruano e aos familiares das vítimas dos enfrentamentos em Bagua em 5 de junho de 2009 e tornamos públicas as seguintes declarações:

- rechaçamos a política autoritária do governo de Alan García para a selva amazônica e seus povos originários;
- responsabilizamos o Presidente Alan García e seu gabinete ministerial pelas mortes ocorridas na localidade de Bagua;
- consideramos ilegítima a mesa de diálogo criada pelo atual governo peruano, uma vez que não faz parte dela a maior organização indígena representativa dos povos amazônicos, a AIDESEP;
- exigimos a derrogatória dos decretos legislativos 1064, 1073, 1089 e1090;
- exigimos a imediata derrogatória da ordem de captura e prisão de Alberto Pizango Chota;
- exigimos que todos os processos referentes aos recentes protestos indígenas sejam julgados em tribunais internacionais;
- exigimos que o governo dos EUA suspenda o Tratado de Livre Comércio com o Peru enquanto não sejam esclarecidos os fatos sobre o massacre de Bagua e enquanto não sejam efetivamente respeitados os direitos dos povos indígenas neste país.

Coordenação Geral do CTI

Brasília, 17 de junho de 2009


 

 

Centro de Trabalho Indigenista - SCLN 210 Bloco C Sala 217 - Brasília/DF cep 70.862-538 Fone: +55 (61) 3349-7769 Fax: ramal 210
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