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À redação de VEJA

Brasília, 14 de março de 2007

          A reportagem “Made in Paraguai” (VEJA, 14/03/2007, pág. 56-58) apresenta conclusões precipitadas e equivocadas. Em primeiro lugar, a Funai ainda não chegou a uma definição sobre o processo de regularização da Terra Indígena Morro dos Cavalos, cujo trâmite administrativo cumpre rigorosamente os requisitos do artigo 231 da Constituição Federal e do Decreto Presidencial 1775/96.
          Em segundo lugar, a reportagem estimula velhos preconceitos contra a população indígena de um país que se orgulha de suas raízes multiculturais. Os índios Guarani M`byá habitam os territórios do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Como vários outros povos indígenas, vivem no Brasil e em demais países da América do Sul. É o caso dos Tikuna, dos Ingaricó, dos Galibi, dos Ashaninka, dos Kaiowá e de tantos outros. É graças aos povos indígenas que o Brasil possui suas dimensões continentais.
          Por fim, a Funai se alegra com o fato de VEJA reconhecer seu esforço pela demarcação das terras e pela proteção dos direitos indígenas. Contudo, a Fundação reitera que, ao contrário do sugerido pelo texto, suas ações orientam-se pela legislação nacional.

Coordenação Geral de Assuntos Externos
Fundação Nacional do Índio


 

 

Resposta da Funai publicada na Veja, edição 2000, de 21.03.07

À redação de VEJA

A Funai ainda não chegou a uma definição sobre o processo de regularização da Terra Indígena Morro dos Cavalos, cujo trâmite administrativo cumpre rigorosamente os requisitos do artigo 231 da Constituição Federal e do Decreto Presidencial 1775/96.
O índio guarani embiá habita o território do Brasil, do Paraguai e da Argentina. Como vários outros povos indígenas, vive no Brasil e em outros países da América do Sul. É o caso dos ticunas, dos ingaricós, dos galibis, dos achanincas, dos caiovás e de tantos outros. É graças aos povos indígenas que o Brasil possui suas dimensões continentais.
A Funai se alegra com o fato de VEJA reconhecer seu esforço pela demarcação das terras e pela proteção dos direitos indígenas. Contudo, a Fundação reitera que, ao contrário do sugerido pelo texto, suas ações orientam-se pela legislação nacional.

 


 

 

AS CESTAS E O GENOCÍDIO

"O que está em curso com essa mortandade endêmica de índios é, na verdade, um genocídio, que lança na cara da sociedade a acusação, até agora irresponsável, de criminosa omissão."(Fabio Trad, presidente OAB secional MS14/3/07).
Talvez o presidente da Funasa esteja objetivando a criação da milionária TV para transmitir ao vivo e a cores o que a barbárie da ganância está conseguindo fazer com os índios no Mato Grosso do Sul.
É sabido que a caneta mata tanto quanto a espada ou a fome. Basta vermos a ignominiosa campanha  veiculada na Veja. O Povo Guarani é ridicularizado e enquadrado em paraguaio, argentino ou outros forasteiros que vilipendiam essa terra, cospem na nossa cara, e são exaltados como mocinhos montados na besta do progresso, troteando por entre as vítimas das racistas teses desenvolvimentistas. Basta. Ou estancamos essa vala de violência e mortes, ou seremos, perante a história, cúmplices desse processo criminoso.
Já imaginaram algo mais aviltante do que depender sistematicamente de um sacolão, seja ele proveniente de uma mão caridosa ou de um assistencialismo estéril e opressor. Mata do mesmo jeito.  Ou melhor adia a morte para outro dia. Mata primeiro por dentro. Mata a auto-estima de um povo, de portadores de uma heróica história de resistência e abundância.
Alguns meios de comunicação se apressam em apresentar números e estatísticas do óbvio - a morte por fome e desnutrição, o suicídio por falta de perspectiva de vida,  a corrosão interna do sistema social e familiar, que gera a violência desenfreada, enfim "um profundo mal estar nas aldeias Guarani", como afirmou recentemente o antropólogo Jorge Grunberg.
E o que estamos nós a fazer, se cúmplices não queremos ser? A indignação é um começo, mas não basta.
A apatia e descrença - é assim mesmo! Nos conduzirá a nosso próprio inferno. Ou nos colocamos no caminho de profundas mudanças ou sucumbiremos sob nossas próprias mazelas. Que a ira solidária desabroche em flor guerrilheira,  bela e instigante, para seguirmos avante nesse chão que produz alimentos e dignidade.
Soa muito triste o lamento da fome que tem que se socorrer de cestas básicas. É amargo o fel da esmola estrutural. Mas infelizmente quem passou fome e disse ter vindo para superá-la, parece estar no caminho do aprofundamento da mesma, na medida em que opta pela acumulação gananciosa.
Se cestas e genocídio não rimam, se alimentam. Que amanhã brote uma nova semente.

Egon Heck
Cimi MS

 

 


 

 

Prezados Senhores

          O motivo desta carta de repúdio à matéria Made in Paraguai, da Veja de 14 de março, é a tendenciosidade da matéria. Chamo a atenção para os seguintes pontos:
          1)considero que esteja faltando uma investigação mais aprofundada por parte da Veja a respeito dos índios Carijós. A antropóloga Maria Inês Ladeira não é a única a tratar deste tema, embora o faça de modo competente. Existem outros antropólogos, historiadores e lingüistas que têm estudos publicados. Sugiro que sejam lidos, pois são de domínio público e seus títulos e muitos de seus textos estão disponíveis, inclusive, na internet.
          2)Considero a necessidade da Veja aprofundar os estudos científicos referentes aos índios Mbya-Guaranis, que a revista chama de Embiá, pois não se pode definir o pensamento de outros povos com olhar etnocentrista. Como outras tantas pessoas fizeram, realizei minha pesquisa de mestrado estudando a economia dos Mbya-Guaranis da ilha da Cotinga em Paranguá-PR. Na minha percepção, o que está sendo dito no texto é um desrespeito aos Mbya-Guaranis, ao trabalho antropológico, aos trabalhos científicos, pela simples falta de realizar um jornalismo científico. Penso que quem escreve sobre índios precisa se preparar, estudar, fazer uma especialização em jornalismo científico e consultar muitas outras fontes.

Atenciosamente

Zélia Maria Bonamigo
Jornalista e Antropóloga.
Curitiba/PR


 

 

          Venho por meio desta, demonstrar a minha indignação com a matéria “Made in Paraguai” (Veja 1999 ano 40 nº 10).
          A matéria simplesmente deturpa os fatos com relação ao processo de demarcação da terra indígena Morro dos Cavalos, e acusam os Guarani de serem estrangeiros em sua própria terra. O jornalista acusa os Guarani de serem paraguaios e argentinos, só que as pessoas que ele cita na matéria, nasceram no Brasil, um no estado do Paraná e outro no Rio Grande do Sul, mas independente da onde nasceram, é preciso ter claro que o território Guarani compreende os seguintes países: Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai e Bolívia e que independente da onde nasceu o mais importante que como sendo Guarani ele está dentro do seu território, já que as fronteiras foram imposta pelo Juruá (branco).
           O Povo Guarani se divide em subgrupos: Mbyá, Kaiowá e Xiripá Nhandeva, o grupo embias citado pelo jornalista não existe. Mas o mais grave é que essa matéria traz acusações de invenções de terras indígenas, como se os povos indígenas citados fossem inventados, que não tem história, que não tem território e não tem direitos. Na minha opinião a revista ao publicar essa matéria está se colocando contra os povos indígenas, principalmente contra o direito mais sagrado desses povos, que é a terra.

Osmarina de Oliveira
Geógrafa
Florianópolis/SC


 

 

Caro leitor,

          Você não merece ser desinformado e agredido em sua inteligência como ocorreu com a matéria “Made in Paraguai” (Veja 1999 ano 40 nº 10). Vejamos algumas incoerências resultantes de incompetência e/ou má-fé, de preconceitos e falta de ética profissional:
          1 – Carijó, Mbyá (não Embiá conforme consta na matéria), Kaiowa, Xiripa, Nhandeva e tantos outros, são classificações lingüísticas (subgrupos) de um único povo indígena:  Guarani. O repórter esqueceu de informar isso, preferiu falar em embiás como se fosse um povo indígena;
          2 – As classificações de grupos indígenas obedecem a interesses e contextos diversos. Se anteriormente eram chamados de Carijós, Cariós, M’biaças, Tapes e hoje são Mbyá, Kaiowa, são por questões externas ao povo indígena. O que importa, no caso, é que todos esses grupos falavam e falam uma mesma língua, mantém a organização social uniforme e a cultura material (como a cerâmica), já provada pela arqueologia, idêntica. Infundada a informação do Ministério Público Catarinense que os Carijó tinham características físicas diferentes. Para a arqueologia, a etno-história e a antropologia essa informação não procede;
          3 – O território Guarani abrange um vasto território no cone sul americano. Com pequenas variações é o mesmo território registrado pela etnografia desde muito antes do ano 1500. Esse território só começou a receber fronteiras nacionais com a chegada do invasor europeu. Foi nesse momento que surgiu Paraguai, Argentina, Brasil, Uruguai e tantos outros. Porém, para os Guarani o território continua sendo o mesmo, continuam migrando o ocupando esse território como já faziam anteriormente, com limitações em função da falta de espaço e pelo fato do meio ambiente estar degradado. Para o Guarani pouca importa se a pessoa nasceu no ES, SC, Misiones, MS ou Paraguai, pois o povo é único e o território é o mesmo.
          4 – Contrariamente do que apresenta a matéria, o TCU não declarou inconsistente a “tese” da antropóloga. Esse tribunal informa no Acórdão, que não teve acesso ao relatório circunstanciado (“tese”). Bastaria o repórter ter lido o Acórdão.
          5 – O repórter José Edward também não leu o relatório circunstanciado nem qualquer outra informação séria sobre o povo Guarani, evidencia-se, pela quantidade de inverdades que são afirmadas. Confiou na fonte errada. A pergunta é: Por que confiou apenas em fontes contrárias aos povos indígenas, contrárias a demarcação de Terra Indígena Morro dos Cavalos? Não cita uma linha sequer das respostas da antropóloga enviadas via e-mail!

Clovis Brighenti
Mestre em integração latino americana
Florianópolis – SC


 

 

Caro Presidente e editor Sr. Roberto Civita

          Por anos minha família foi assinante da Veja, porém há algum tempo tenho achado que a qualidade da revista caiu bastante, estando direcionada para matérias sensacionalistas e claramente tendenciosas. Por isso cancelei minha assinatura, mas ainda comprava eventualmente a revista. Fiquei chocada ao ler na última edição a matéria intitulada "Made in Paraguai - FUNAI quer demarcar terra para paraguaios". Como uma revista de circulação nacional permite que um repórter escreva um texto de forma tão grosseira, com tamanha  falta de informação e clareza? Sou arquiteta e, portanto, leiga no assunto, e fico indignada ao concluir que a revista trata os leitores como ignorantes, incapazes de perceber as distorções e incongruências de uma matéria.
          Primeiro, o texto fala em índios argentinos e paraguaios todo o tempo, eu pergunto: todos os índios que estão lá são reconhecidamente não-brasileiros?  De onde vem esta informação, pois a fonte não é citada.
          Segundo, o texto também cita seguidamente uma antropóloga e antropólogos em geral - que até onde sei são os estudiosos e conhecedores dos índios - sem em nenhum momento entrevistar qualquer um deles.
          Terceiro, o texto reproduz uma frase de um promotor de justiça, que afirma que os índios carijós não tinham qualquer semelhança física e cultural com os atuais embias.
Pergunto: se no início  da matéria o repórter afirma que os carijós desapareceram completamente no séc. XVII, como o promotor pode comparar características físicas desses índios há tanto desaparecidos?
Por que um arqueólogo não foi consultado?
          Quarto, atualmente resido em Florianópolis, mas cresci em Palhoça, cidade onde situa-se o Morro dos Cavalos. Desde minha infância, na década de 1970, lembro de passar pelo Morro dos Cavalos e sempre ficar fascinada olhando os "bugres" como eram chamados, que moravam no Morro. Pergunto: o repórter afirma que os índios estão lá somente a partir dos anos 1990 com o depoimento de apenas uma pessoa?
          Quinto, acho que muitas coisas foram tratadas e misturadas em um texto tão pequeno, como se o problema dos índios e das terras indígenas fosse o mesmo em todos as regiões do país.
          Sexto, por que os índios, os reais nativos dessa terra, mereceram um tratamento tão grosseiro e preconceituoso da revista? Por que nenhum índio foi entrevistado sobre a questão que a matéria trata, a demarcação de suas terras?
          Enfim, essas são apenas algumas questões que uma simples leitora, interessada em se atualizar com as notícias da semana, percebeu nesta  matéria.
          Acho importantíssimo tratar dos problemas indígenas, mas por favor, façam isso de maneira séria, com mais espaço na revista, pois o tema é polêmico e abrangente e, principalmente, consultando antropólogos, funcionários da FUNAI e pessoas competentes da área.

Grata pela atenção e esperando ver meu e-mail publicado,

Cláudia Scharf – Arquiteta
Florianópolis/SC


 

 

 

          Lamentável a reportagem de José Edwards sobre os indios GUARANIS de Morro dos Cavalos (Grande Florianópolis), em que, os quais não são brasileiros.
          A matéria (sob encomenda?), distorce informações,desconsidera registros históricos sobre a população Guarani, promovendo o odiável racismo e a xenofobia.

BURRICE OU MÁ FÉ DO REPÓRTER E DA REVISTA?!

Claudenir Levandro Gazzoni
Ex-assinante de Veja há muito tempo!

 


 

 

VEJA, os excluídos de seu próprio mundo

          É desafiador o trabalho que a Educação tem pela frente neste país!
          Um repórter com um Laudo Demarcatório nas mãos, um email à sua autora para algumas "dicas", umas entrevistas descontextualizadas, muitos equívocos ao nomear instituições, entre eles, tomando promotoria por procuradoria, nenhuma leitura da maior bibliografia sobre uma etnia sulamericana. Nenhuma das últimas teses produzidas nas várias universidades brasileiras transformaram, na reportagem, até o nome do subgrupo, de mbyá ( em guarani) para embiás.
          Sim, os carijós não existem mais, da mesma forma que os portugueses e espanhóis que aqui chegaram se transformaram. A primeira escravatura nesse país foi com índios, incluídos os Tupi e Guarani, e muitas fontes quinhentistas nos autorizam a afirmar que quando não foram caçados para escravos, fugiram para as impenetráveis florestas interiores que maravilhavam viajantes e cronistas, assim como a abundância em que viviam seus habitantes. A cada avanço das fronteiras extrativistas e agropecuárias, deslocavam-se buscando a invisibilidade. A mobilidade Guarani tem historicamente razões estruturais à própria cultura, adaptativas, conjunturais à necessidade de sobrevivência. Da mesma forma que um dia fugiram, um dia voltaram buscando os contornos próprios a um povo de floresta, a floresta é o seu mundo cujas fronteiras não são as nossas. A geopolítica do Cone Sul lhes foi imposta, da mesma forma que às outras etnias, com  as quais compartilharam e disputaram espaços territoriais que a Arqueologia mapeou. Se há guarani nascido sob a jurisdição paraguaia e argentina sob a jurisdição brasileira, há também guarani nascido sob a jurisdição brasileira no Paraguai e na Argentina.
          As densas florestas meridionais passaram a ser disputadas pelas suas valiosas madeiras por brasileiros, paraguaios, argentinos, depois criação de gado e agricultura extensiva- commoditis globais; mas alguns "espaços de refúgio" mais inacessíveis foram seu último baluarte até que a devastação alertou para a necessidade de conservação do mínimo, um anteparo à desertificação, ao escasseamento de recursos hídricos, à captura de carbono, à contribuição ao aquecimento global.
Alguns desses “refúgios” tornaram-se Unidades de Conservação da Reserva da Biosfera do Cone Sul, e do Sistema Nacional de Unidades de Conservação no Brasil. Esse o drama atual, o que restou do mundo das florestas continua refugiando os Guarani e ao mesmo tempo viraram Unidades de Conservação.
          Último capítulo dos séculos de transplante de um sistema agropastoril com manejo de clima temperado europeu no subtrópico latino americano, e o resultado é a pobreza ambiental da Mata Atlântica que traduz com veemência a pobreza dos Guarani que esgrimem seu direito constitucional à demarcação de espaços territoriais tradicionais em todos os países do Cone Sul. 
          É de bom alvitre que a narrativa dos acontecimentos seja  contada de forma perspectivada, do ponto de vista da concepção da História dos que chegaram depois, da Etnohistória dos que assistiram às muitas chegadas e  pelas ciências arqueológica e ambiental e agronômica que revelam evidências irrefutáveis de que é necessário fazer-se Justiça histórica e Justiça ambiental para a permanência da vida nessas latitudes. Já não há mais Eles e Nós, há a necessidade antes, de trocarmos a velha moeda do conhecimento, que a do racismo ou do nacionalismo e cuidarmos que as fronteiras políticas não destruam ainda mais esse que já foi um dos mais belos e exuberantes ecossistemas da Terra.
          Essa sim pode ser a maior lição dessa narrativa que está sendo escrita a muitas mãos, que ela sirva de alerta e em tempo real e não seja reprisada na Amazônia latinoamericana.

Ângela Bertho
Professora Departamento de Antropologia Social da UFSC
Doutora pelo Doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas


 

 

 

VEJA e a incongruência dos extintos

          Com preocupante freqüência, a revista VEJA publica matérias de capa apregoando as maravilhas da vida em Florianópolis. Milhares de cidadãos brasileiros ou não, descendentes das mais diversas nações da terra, fogem da violência e do caos urbano de suas cidades de origem e vão se instalar nessa ilha de infra-estrutura frágil e exuberante natureza –já em boa parte localizada sob as mansões que eles vão construindo. Com a mesma freqüência, a revista VEJA publica matérias sobre outro tipo de invasão. Desta vez, uma invasão de índios “paraguaios” e “argentinos” no Morro dos Cavalos, bem às portas de Florianópolis. A diferença entre uma e outra invasão é evidente: os índios não têm dinheiro para comprar terrenos e edificar mansões, e isso é um problema. São mortos de fome, pedinchões; laranjas da FUNAI e dos antropólogos que têm uma perversa inclinação a semear pelo país afora lamentáveis colônias de maltrapilhos. Como a reportagem da VEJA indica, os índios sempre estão onde não devem: em áreas de valor agrícola, em reservas ecológicas, em sítios históricos, à beira de estradas que devem ser duplicadas. Pior ainda, acrescentemos, nas fronteiras. Cidadãos de bem não têm a fronteira do Paraguai, da Argentina ou da Bolívia na sua sala de jantar. Se acaso, possuem propriedades a um lado e outro, nunca uma miséria binacional. Já foi pior, convenhamos: houve um tempo em que os índios estavam por toda parte, não deixando espaço livre para fazendas, estradas, nem fronteiras. Por isso tiveram que ser extintos. Mas os índios têm ainda o mau gosto de se amontoarem em territórios exíguos no Mato Grosso do Sul, de andar por aí depois de serem extintos e de colocar cocares de plumas para que os tomemos por índios. Poderiam evitar tantos constrangimentos se ficassem na terra deles, ou, caso quisessem mudar, se comprassem uma nova com o dinheiro deles. O repórter prestaria um serviço ao país investigando as razões dessa conduta extraordinária, e explicando porquê, aparentemente, eles nunca têm terras nem dinheiro, e estão sempre onde não devem, mamando das tetas do governo.
          Não sejamos injustos. A revista VEJA já tem se ocupado outras vezes do outro lado desse escândalo, denunciando que outros índios –os Kaiapó, os Cinta-Larga, por exemplo-, têm demasiadas terras ou demasiados diamantes. Isso também está mal: há no Brasil pessoas, que a VEJA sabe identificar, mais graduadas para acumular terras e dinheiros, e que, como sabemos, chegaram a essa posição centavo a centavo e sem tocar em teta nenhuma. Índio que é índio não tem dinheiro; a rigor, como a terra deve se comprar e render, também não deveria ter terra, ele deveria estar onde não deve.
          O repórter, da velha estirpe brasílica dos Edwards, se preocupa pela autenticidade desses índios: serão eles verdadeiros descendentes dos primeiros habitantes desta terra? Ou serão argentinos, bolivianos e paraguaios? Isto é grave: como sabemos, as nações sul-americanas passaram longos anos a examinar os passaportes dos índios para saber aonde colocar os marcos de fronteira. Ou serão figurantes pagos pelas ONGs ou pela Igreja? Só com fraudes, erros metodológicos e incongruências podem os antropólogos sustentar o inverossímil: que os índios existem e, de Cabral à hora presente, estiveram em alguma parte.
          A situação é aberrante, e cabe aos índios tomar um de dois caminhos: ou se comportarem de fato como extintos, nobre condição que cabe aos primeiros habitantes da nossa terra, ou  se integrarem na sociedade nacional nos lugares habitualmente designados aos seus descendentes, isto é nas cadeias, nas favelas e sob as pontes. De preferência, fora das poucas ilhas maravilhosas que ainda existem.

Oscar Calavia
Antropólogo PPGAS-UFSC, Florianópolis/SC


 

 

 

          Gostaria de apontar minha revolta quanto à matéria intitulada “Made in Paraguai”, edição 1999, por seu tom jocoso e irônico.
           Na verdade, desconheço as particularidades em relação à Terra Indígena Morro dos Cavalos, foco da reportagem, mas posso afiançar que os índios não estão lá somente desde os anos 1990, pois lembro-me bem que em 1971 passei algumas vezes de carro pela BR 101 – morava em Curitiba/PR e estudava em Novo Hamburgo/RS, em internato – e lá já viviam famílias indígenas, o que me chamava a minha atenção e era foco de comentários na família. 

Karin Lisboa
Curitiba/PR

 


 

 

 

Prezados Editores da Revista Veja,

          Considero vergonhosa e de extrema má fé, a forma como foi conduzida a reportagem sobre os índios Guarani da aldeia Morro dos Cavalos pelo repórter José Edward.
          A pergunta é, a que propósito uma reportagem como essa possa servir? Haja visto que o que acredito ser o papel de um bom repórter, seja investigar com profundidade, informar com responsabilidade e propriedade, coisa que a meu ver o sr. José Edward o fez com tamanha falta de profissionalismo,  tentando atingir o povo Guarani que se constitui na maior etnia indígena do nosso país.
          Só temos a repudiar atos como esse que reiteram e reforçam preconceitos quinhentistas quanto aos povos mais legítimos de nosso território nacional.

Jean Carlos de A. Medeiros
Engenheiro Agrônomo – Mestre em Agroecossistemas
Gaspar-SC 

 


 

 

Feitos no Brasil x Made in Paraguai

          Li a reportagem da Veja, de 14 de março de 2007, de José Edward e me impressionei com tamanha falta de informação. Primeiro dizer que a FUNAI usa de “argumentos duvidosos” para demarcar ou criar reservas indígenas, criticando as fontes usadas para tal, no caso da antropóloga e pesquisadora Maria Inês Ladeira, as quais para o autor da reportagem tratam-se de uma fraude. Ora, uma pesquisa quando chega a ser publicada é porque antes passa por uma banca examinadora e há critérios para realizá-la. Outro aspecto, talvez o mais sério na reportagem é tratar os “Kaiovás”, “Nhandeva”, os “Tupiniquins” e os “Mbiá”, como grupos distintos, não havendo nenhuma relação entre eles. São grupos de uma mesma origem lingüística - Guarani, por isso entre eles tratam-se como uma só família, ou etnias irmãs. Ainda, dizer que o grupo existente no Morro dos Cavalos é Paraguai é desconhecer a trajetória histórica do povo Guarani, bem como do grupo de famílias que ali residem, assim como das famílias de Guarani espalhadas pelo litoral catarinense. Para se fazer afirmações sobre determinados grupos étnicos é necessário conhecimento, convivência, pesquisa, estudos, o que não se evidencia na reportagem.
          O mais grave é que o autor fundamenta-se somente nos dizeres do ministério público e também ouve apenas uma das famílias para chegar a estas conclusões. Cabe perguntar: em que se fundamenta o Ministério Público para apontar “falhas metodológicas” nos estudos realizados pela pesquisadora Maria Inês? Que métodos o promotor usaria? Que método de pesquisa o repórter usou? Quais as “incongruências históricas e antropológicas” apontadas pelo TCU no processo de indenização? (É muita ingenuidade não pensar que por trás da não demarcação das terras há muitos intere$$es...Não só aqui, mas no Espírito Santo, onde a outra parte intere$$ada é uma grande multinacional, que “faz um bonito papel” expulsando as famílias nativas e degradando o meio ambiente). O repórter não usou de “argumentos duvidosos”? Que objetivos tem a revista e o repórter em publicar uma reportagem como esta? Quem pagou para que ela fosse publicada?
          Percebemos nitidamente como os meios de comunicação (no caso aqui a Revista Veja) conseguem distorcer os fatos e passá-los como verdades. É lamentável que depois de 500 anos da chegada dos europeus a este continente se tenha ainda a mentalidade retrógrada, dominadora e exploradora dos que aqui vieram. Os povos que aqui moravam e moram continuam sendo extirpados, dominados, humilhados e abandonados à própria sorte!

Helena Alpini Rosa


 

 

 

          Não há dúvida de que a Revista Veja, assim como outros jornais e meios de comunicação, entre os quais A Gazeta, do Espírito Santo, subordinados a interesses bem diferentes dos de um jornalismo profissional, como aponta José Ribamar Bessa Freire, estão cumprindo seu papel para a visibilidade da intolerância e racismo contra os povos indígenas.
        Imbuídos de informações falsificadas, deturpadas e de argumentos retrógrados e preconceituosos, assusta a profunda ignorância destes jornalistas nos temas que tratam, se dando o direito de questionar as atribuições do Estado e de suas instituições, e duvidar de profissionais, como M. Inês Ladeira, conhecidos pela seriedade e competência com as quais há anos desenvolvem seus trabalhos em prol das populações indígenas, cujos direitos, garantidos pela Constituição Brasileira e pela legislação internacional, são sistematicamente omissos nestas reportagens.
          A competência da incompetência está tomando conta destes meios de comunicação, pois é desta forma que conseguem reproduzir discursos colonialistas e desenvolvimentistas notórios pelas violências praticadas contra as populações indígenas. Considerando-os passados ou do passado, estes jornalistas não conseguem enxergar “embias”(sic!), mas também Tupinikim, Caiabi, Kaiova e Nhandeva, como sujeitos de direitos e protagonistas de sua história presente. São índios mortos, estrangeiros indesejáveis, inventados, ressuscitados e manipulados por antropólogos, ong´s e uma Funai “leniente”, todos mentirosos e delirantes no anseio de demarcar terras que certamente poderiam e/ou estão sendo “melhor” aproveitadas, para monocultura de eucalipto, de soja, para criação de gado, etc., para empreendimentos, nacionais, multinacionais e estrangeiros, estes sim bem vindos, para o progresso do país e a salvaguarda dos patrimônios nacionais.
          Os argumentos sem fundamentos usados nas reportagens para “desmascarar as mentiras” não poderiam ser que outras mentiras: os invadidos e expropriados de suas terras são chamados de invasores, as manifestações de auto-afirmação são definidas de disfarce, os direitos são considerados privilégios. Qual será o nome desta profissão e será que é mesmo nova?

Celeste Ciccarone
Universidade Federal do Espírito Santo


 

 

 

Veja: os índios e o uísque paraguaio

           Você, leitor (a), compraria um uísque ‘escocês’ destilado numa fábrica de fundo de quintal do Paraguai? Ou fumaria tabaco ‘paraguaio’ plantado na Escócia? Então, cuidado, porque é isso que estão tentando fazer descer por tua garganta. Querem te vender gato por lebre, confundindo cinto com bunda e cipó com jerimum. Não te deixa enganar! Olha só!
          A revista VEJA desta semana publicou matéria sobre a Terra Indígena Morro dos Cavalos, em Palhoça (SC), onde vivem 130 índios Guarani. A área situada no Parque Estadual da Serra do Tabuleiro é pequena. Conta com apenas 1.988 hectares, mas adquiriu valor econômico porque a BR-101, construída na década de 1960, está agora ampliando sua pista. Os índios aceitaram negociar, sugerindo que no lugar de um viaduto, fossem construídos dois túneis, que seriam menos invasivos.           De qualquer forma, exigem indenização, o que é previsto, legalmente, nesses casos.

Os Carijós

          Bastou isso para desestabilizar VEJA. A revista, em sua linha editorial, considera os índios como um obstáculo ao progresso, e os direitos indígenas como privilégios contrários aos interesses nacionais. Decidiu noticiar o fato dando-lhe, porém, tratamento tendencioso, sem qualquer compromisso com a informação. A malandragem já começa pelo título que esconde os interesses particulares e políticos existentes por trás da situação fundiária: “A Funai quer demarcar reserva para paraguaios”.
          É claro. Nenhum leitor sensível aceitaria que VEJA, para defender interesses obscuros, atacasse 130 índios, confinados hoje numa pirambeira porque foram expulsos do seu outrora vasto território. Por isso, a revista apelou para o nacionalismo do leitor, transformando os moradores da aldeia em “paraguaios”, sem qualquer relação com os “índios brasileiros”, a quem finge defender: “A Funai tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome”.
Na maior cara-de-pau, o repórter José Edward insinua aqui uma relação causal: os “nossos índios” estão morrendo de fome, só porque a Funai quer demarcar o Morro dos Cavalos como reserva indígena, “para brasileiro pagar e paraguaio (e argentino) usufruir”. No entanto, VEJA, felizmente, está vigilante e não permitirá que isso aconteça. Dá vontade de pedir ao repórter: - “Depois dessa do paraguaio, conta agora a do papagaio”.
          De onde José Edward tirou essa história de “paraguaios”? Ele não pode deixar de reconhecer que, efetivamente, todo o litoral catarinense era ocupado pelos carijós, mas garante que essa etnia, de um lado “foi considerada extinta em meados do século XVII”, e de outro, não tem qualquer relação com os atuais Guarani, que vivem hoje em centenas de aldeias no Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. É o velho golpe: descaracterizar a ocupação tradicional dos índios para poder abocanhar suas terras.
          Como é que Edward sabe que esses índios foram extintos no século XVII? Ele não confessa nem sob tortura e levará esse segredo para o túmulo. Não cita qualquer fonte histórica para apoiá-lo, mas invoca uma fonte atual sem qualquer qualificação acadêmica para tal tarefa, o promotor José Cardoso, parte interessada em impugnar a demarcação, que afirma: “Os carijós tinham características físicas e culturais distintas da dos embiás e estão extintos”. O repórter acreditou no promotor e ponto final.
          Se não revela quem extinguiu os Carijó - afinal é preciso preservar suas fontes - Edward não hesita em indicar quem recentemente os ressuscitou: a antropóloga Maria Inês Ladeira. Em suas pesquisas, ela comprovou “que alguns carijós teriam se refugiado no Paraguai, onde seriam chamados de embiás”. Por causa disso - acredita Edwards - “dezenas de embiás paraguaios (e alguns argentinos) sentiram-se legitimados para invadir o parque ecológico da Serra do Tabuleiro”.

Os “paraguaios”

          O repórter de VEJA pensa que índio é como uísque: se veio do Paraguai, é falso. Desconhece as pesquisas etnográficas e etnohistóricas, que envolvem um cuidadoso levantamento genealógico, sistemas de parentesco, organização social, cosmologia, conhecimento da língua e registros escritos e orais. Se lesse tais estudos, saberia que o povo guarani habita esses territórios muito antes da criação das fronteiras nacionais e que ainda hoje é comum encontrar nas aldeias guarani do Brasil, Argentina, Uruguai ou Paraguai indivíduos e famílias que moraram ou nasceram em diferentes países.
          Se tivesse apurado corretamente, saberia que a região da aldeia de Morro dos Cavalos é denominada de Tekoa Yma, que significa “aldeia antiga”. Não escreveria que a ocupação dos “paraguaios” é recente. Bastaria consultar as fontes escritas e orais. Na “Breve notícia dos limites e confins dos Carijós”, os jesuítas Inácio de Sequeira e Francisco Moraes confirmam a antiguidade da ocupação, citando nominalmente os índios que organizaram a resistência: Caraibebe, Araraibe, Diabo Manco, Grande Anjo, Igparuguaçu, Boiupeba, Tubarão, Ocara Abaeté, Marumaguaçu e tantos outros.
          Edward poderia confirmar essas histórias, ouvindo um antigo morador do Morro dos Cavalos, Alcindo Moreira, 96 anos, atual xamã da aldeia de Biguaçu, a quem o autor dessas linhas conhece muito bem, porque divide com ele e sua esposa, dona Rosa, as aulas de História no Curso de Formação de Professores Guarani da Região Sul e Sudeste. Em depoimento à antropóloga Ângela Bertho, Alcindo confirmou: “Isso aqui era só mato. Tinha de tudo, a gente vivia bem. Mas depois abriram a estrada e foram tomando conta de tudo, só sobrou esse barranco”.
          O repórter Joseph Eduards, que nem sequer consegue grafar corretamente o nome Mbyá (ele escreve embiá), mijou fora do penico. Sua matéria tendenciosa e sensacionalista nos leva a formular uma série de perguntas: onde é que esse rapaz estudou jornalismo? Quem foram seus professores? Qual a experiência que tem com os índios? O que foi que ele leu sobre o assunto? Por que obedece cegamente a linha editorial da revista sem qualquer questionamento? Quais são os princípios éticos que norteiam sua conduta?
          Se esse repórter fosse meu aluno, eu o reprovaria. Planejou mal, apurou incorretamente e redigiu de forma incoerente. Daria um zero bem redondo em Ética. Mandaria refazer tudo, aconselhando a se dedicar a outros temas, como aquele da matéria que ele fez em dezembro de 2005, sobre “a alma praiana de Belo Horizonte”, quando registrou a existência de 10 mil bares e botecos na capital mineira, bolando um título criativo: “BH, se não tem mar, tem bar”.
          Quanto ao veículo no qual escreve, pergunto francamente: quem acredita no que a VEJA publica sobre os índios, depois do caráter parcial da reportagem sobre Paulinho Payakã, acusado injustamente de estuprador, sem nunca ter sido entrevistado pela revista? VEJA não tem credibilidade. Não dá pra ler nem no dentista. Nas universidades brasileiras é motivo de chacota. Quando você quer insinuar que uma informação é falsa, diz: “foi publicada na VEJA”. Como professor de jornalismo, usei sempre em sala de aula matérias como essa para servir de modelo do que não se deve fazer.

José R. Bessa Freire
Doutor em Letras
Prof. da UERJ e da UFRJ


 

 

 

          Venho manifestar meu repúdio à matéria " Made in Paraguai" publicada na Veja a qual me impressionou negativamente por várias razões. Uma delas foi por ignorar que as populações indígenas que habitam este continente tem uma história de vários milênios. No caso específico que trata a matéria, o caso dos guaranis, que habitam há pelo menos dois mil anos toda a área que hoje é compreendida pelos estados do sul, sudeste, e parte do centro-oeste do Brasil, parte do Paraguai e Argentina, partes do Uruguai e Bolívia.
         A demarcação das fronteiras do que hoje são os países, é bem mais recente, foram estabelecidas na forma como conhecemos hoje nos últimos duzentos anos, é respeitada pelos grupos indígenas, que se identificam com estas nações, mas que tem também laços de parentesco e uma maneira de ver este território, distinta da forma que a matéria apresenta. Outra, é a maneira como o autor da matéria denigre o trabalho de uma cientista, que teve sua tese aprovada na academia, por seus pares. Chamar um trabalho consolidado de fraude, sem entrar nos detalhes do trabalho, depositados nas bibliotecas, poderia ser considerado um ato de desrespeito e uma ignorância se não fosse o fato flagrante de que esta é uma matéria paga. Afirmo isto pelo simples fato de que os dados considerados no quadro a parte, como verdades, são de autoria da pessoa que reivindica o terreno localizado no Morro dos Cavalos, onde residem historicamente os guarani mbyá. E não embiá, termo que eu, em mais de vinte anos de pesquisas na área da arqueologia e antropologia nunca havia visto.
          Os guaranis moram no Morro dos Cavalos, documentados fartamente, desde a década de 1940, pelo menos. Quando a primeira BR 101 foi feita eles já viviam ali. Este local, onde a Serra o Mar se encontra com o Atlântico é importantíssima na visão de mundo deste povo. A estrada cortou sua aldeia pelo meio.
          É inadmissível que uma revista do porte da Veja se paute, numa matéria, em afirmações do pretenso proprietário de uma área que todos os estudos demonstram ser tradicionalmente indígena. O site Antropowatch citado como fonte das informações é direcionado única e exclusivamente para divulgar o caso desta terra, e ataca pessoalmente as pessoas que tem trabalhado nesta área, numa atitude obsessiva do citado Walter Bensousan.  Se o jornalista tivesse consultado os trabalhos científicos, não poderia escrever na linguagem chula que a matéria traz, falando nos índios guarani como hermanos, numa atitude racista.
          A Funai, é um órgão do Ministério da Justiça, e que durante muitos anos fez a política do Estado brasileiro, de tentar acabar com os grupos indígenas, das mais variadas formas, como por exemplo, no caso do Mato Grosso do Sul, citado na matéria, loteando as suas terras e espremendo-os em reservas. Depois da constituição de 1988, que garantiu aos povos indígenas o direito a sua terra imemorial, a educação diferenciada, ao direito de falarem suas línguas, o órgão vem tentando fazer uma política diferente. O caso do Morro dos Cavalos, terra guarani, está há mais de dois anos completos, com todas as etapas legais cumpridas, na mesa do Ministro da Justiça. Sua assinatura, no entanto, esbarra neste tipo de lobby, ao qual a revista Veja vem, neste caso, dar todo o espaço.

Profa. Dra. Deise Lucy Oliveira Montardo
Departamento de Antropologia – UFAM
Manaus/AM – Brasil


Mais manifestações de repúdio à reportagem de Veja .

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