20.03.2007 Programas Ações Estratégicas Povos indígenas C.N.P.I. Mapas
 
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Conheça algumas das
manifestações de repúdio à reportagem da Revista Veja
contra os Guarani de Morro dos Cavalos

   

Página 1, 2, 3

 


 

 

         A desinformação veiculada pela Revista Veja sobre a Terra Indígena Morro dos Cavalos – SCO processo de reconhecimento oficial da Terra Indígena Guarani Morro dos Cavalos, localizada no estado de Santa Catarina, vem tornar-se caso exemplar das dimensões alcançadas pelos conflitos que têm obstado a regularização fundiária das Terras Indígenas com o recente agravamento da violência racista fomentada contra os índios, e as injúrias e insultos propagados contra antropólogos e instituições especializadas. O crescente agravamento deste caso  revela-se diretamente proporcional à inoperância e à protelação dos atos conclusivos do governo federal para a regularização das Terras indígenas no país.
         Devemos ressaltar inicialmente que esta Terra Indígena Guarani foi identificada e delimitada com a publicação do Despacho do presidente da FUNAI nº 201 em 17 de novembro de 2002 no Diário Oficial da União (e no Diário Oficial do Estado em 2003), aprovando os estudos realizados pelo Grupo de Trabalho instituído pelo órgão indigenista oficial em outubro de 2001, apresentados no “Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos”. 
         Posteriormente à identificação e à delimitação, o processo de reconhecimento oficial da Terra Indígena Guarani Morro dos Cavalos foi submetido aos procedimentos do contraditório, conforme estabelece o  Decreto nº 1.775/96. Terminado o prazo estipulado de noventa dias para a apresentação de contestações, a Funai encaminhou, em outubro de 2003,  o processo em pauta ao Ministério da Justiça, com a devida refutação fundamentada às manifestações apresentadas por particulares e por órgãos do governo estadual de Santa Catarina. A Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça expediu, então, parecer conclusivo favorável à publicação da Portaria Ministerial Declaratória da Terra Indígena Morro dos Cavalos, compreendendo 1.988 hectares, conforme os limites definidos no Relatório Circunstanciado de Identificação e Delimitação.
         Mesmo após o término do prazo estipulado legalmente para a apresentação e a análise de contestações por parte de eventuais atingidos, o Ministro da Justiça,  de modo inexplicavelmente extemporâneo, e sem qualquer alegação técnica ou administrativa, cedeu às gestões entabuladas pelo Ministério Público do Estado de Santa Catarina e remeteu, de forma arbitrária, o processo de volta à FUNAI.
         Desde 2002 as comunidades Guarani têm solicitado reiteradas vezes ao Ministro da Justiça providências urgentes para o reconhecimento da Terra Indígena Morro dos Cavalos, em razão das pressões  e restrições  sofridas.  Dado o fato incontestável de os trâmites administrativos constituintes do processo para o reconhecimento oficial da TI Morro dos Cavalos haverem sido cumpridos, atendendo plenamente os requisitos legais, eis que os mesmos representantes de interesses particulares e  do governo estadual contrários à demarcação da Terra Indígena, cujos pleitos já tinham sido refutados formalmente na fase do contraditório, pretendem agora barrar politicamente a ação governamental e reverter o processo de regularização fundiária com o recurso pelo qual tentam forjar o desvirtuamento de uma acórdão emitido pelo Tribunal de Contas da União (TCU) em maio de 2005. Tal acórdão dispõe sobre as alternativas técnicas para a duplicação da BR 101 que atravessa a TI, determinando ao DNIT e à  FUNAI a realização de estudos específicos para viabilizar a construção de 2 túneis com menor custo e menor impacto à comunidade indígena.
         Entre as diversas investidas contrárias a demarcação desta TI, a matéria  veiculada pela Revista Veja (edição 1999 de 14 de março de 2007) intitulada “Made in Paraguai” é a mais perniciosa pois multiplicada em escala de propaganda massiva, desinformando eventuais leitores pelo país afora.          Reações favoráveis e indignação surgirão, infundidas, infelizmente, com base em  mentiras grosseiras covardemente alardeadas. 
         Não cabe aqui responder às investidas desqualificadas do repórter. Importa  apenas, neste momento, informar sobre o desencadeamento dos fatos que antecedem tal publicação.
No final do mês de fevereiro de 2007,  um repórter da Revista Veja remeteu, via e-mail, uma série de questões tendenciosas, baseadas em informações e documentos deturpados, apresentados adiante, à coordenadora do GT de Identificação e Delimitação da TI Morro dos Cavalos, Maria Inês Ladeira antropóloga do CTI – Centro de Trabalho Indigenista.
         Como se pode constatar, a matéria veiculada na revista superou as piores expectativas possíveis, em todos os sentidos: má qualidade, má fé, deturpação inescrupulosa de fontes, preconceitos raciais e étnicos, além de falsidade deliberada em imputar à  antropóloga e coordenadora do GT de Identificação da Terras Indígena, a autoria de atos e afirmações inverídicos. O mais grotesco, porém, se não fosse trágico, é o oportunismo do autor, ao tentar tirar proveito da crítica situação fundiária dos Guarani kaiová no MS (que vivem na região de fronteira com o Paraguai), contrapondo-os aos Guarani Mbya e Nhandéva, e a outros povos indígenas citados na matéria. Tal oportunismo está explícito na chamada do artigo: “A Funai tenta demarcar área de Santa Catarina para índios paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome”.

Maria Inês Ladeira
Antropóloga – Centro de Trabalho Indigenista
São Paulo/SP


 

 

Ao Diretor de Redação da VEJA

         O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) ficou indignado ao ver a matéria “Made in Paraguai”, publicada na edição de 11/3 da revista Veja, com autoria do jornalista José Edward. A reportagem tratou de forma extremamente desrespeitosa o povo Guarani Mbyá (grafado embiá na matéria) e traz informações erradas sobre demarcação de terras indígenas e sobre este povo.
         O título da matéria insinua que os Guarani Mbyá são falsificados ou de procedência duvidosa (idéia que o senso comum atribui ao que é fabricado – “made” – no Paraguai). Durante todo o texto, os Guarani são tratados de forma jocosa como “hermanos”. O autor da matéria, pelo que mostra o texto, desconsiderou o que a antropóloga Maria Inês Ladeira explicou a ele sobre a dinâmica da circulação Guarani, que atravessa as fronteiras criadas sobre o território deste povo.
         Além de desqualificar os Guarani Mbyá, a reportagem trata de forma leviana a situação fundiária de outros povos indígenas que vivem no Brasil. O jornalista apresenta como fonte uma “consultoria social” e não menciona como estão estes processos na Fundação Nacional do Índio. A Funai não é uma “indústria de reservas”. Como determina a Constituição Federal, ela é o órgão responsável, em nome da União, pela demarcação das terras indígenas.
         Quem definiu o que é terra indígena foi a Constituição. O relatório necessário num processo de demarcação prevê pesquisas etnográficas, com levantamentos genealógicos, ambientais, de organização social, entre outros, para mostrar a relação que um povo tem com a terra em questão. Portanto, o fato de uma terra ser produtiva, por exemplo, não é um critério considerado pela lei para definir se uma terra é ou não é indígena.
         O jornalista também publicou no texto afirmações falsas. O Tribunal de Contas da União não declarou a tese da antropóloga inconsistente, até por que não analisou este relatório.
         Os leitores de Veja merecem reportagens feitas com mais profundidade, cuidado e responsabilidade. E, claro, veracidade.
         Os povos indígenas deste país merecem, pelo menos, seriedade e respeito ao serem objeto de uma reportagem.

         Atenciosamente,

Éden Magalhães
Secretário-Executivo do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)


 

 

Revista veja se supera em leviandades e ataca os povos indígenas

            Nessa semana a revista Veja (edição 1999, ano 40 nº 10 de 14-03-07) demonstrou como um periódico tem capacidade de superar-se constantemente em produzir mentiras e desinformar à sociedade. Atacou os povos indígenas no Brasil e em especial os Guarani que há anos lutam pela demarcação da terra indígena Morro dos Cavalos, no município de Palhoça – Santa Catarina. Matéria encomendada, intitulada “Made in Paraguai”, a revista distorce os fatos, distorce as falas indígenas, ouve somente os setores contrários aos Guarani e usa de preconceitos e leviandades.

            A comunidade Guarani ingressou com um pedido de resposta e solicitou ao Ministério Público Federal que acionou judicialmente a revista Veja por danos morais:

“Vimos por meio deste informar aos editores e responsáveis da Revista VEJA que toda a comunidade Guarani de Morro dos Cavalos está indignada e transtornada com a reportagem intitulada “Made in Paraguai”, Estamos nos sentindo gravemente insultados e desrespeitados pelas calúnias e distorções escritas na matéria que contém racismo e imoralidade, difamando a autenticidade da História Indígena Guarani no Brasil. Nos sentimos também agredidos pela manipulação das informações cedidas em entrevista”.

            Acusam o jornalista de distorcer informações e não se informar dos fatos ocorridos:   “Além de destorcer nosso depoimento e o depoimento de nossos parentes, usaram de inverdades para justificar a reportagem. O reporte não teve o cuidado de conhecer um pouco mais a nossa história, o nosso território e a nossa luta pela terra. Bastaria ler o relatório circunstanciado de identificação e delimitação, que muita coisa iria ficar esclarecida, ele preferiu confiar em fontes pouco confiáveis, essa mesma fonte que há muito tempo vem ameaçando nossa comunidade. O repórter afirma que a TCU declarou inconsistente a “tese” da antropóloga: bastaria o repórter ter lido o Acórdão do TCU pra saber que o referido tribunal informa que não teve acesso a “tese””. Se tivesse lido o relatório iria ficar muito bem informado com a qualidade, seriedade e profissionalismo do material produzido.

            Para a comunidade Guarani toda a responsabilidade por mais essa violência contra os povos indígenas é do Sr. Ministro da Justiça e do Sr. Presidente da Funai.  Informam que desde o dia 06 de outubro de 2003 o processo de demarcação da referidas Terra Indígena foi encaminhado ao Ministério da Justiça para proceder a assinatura da demarcação, e até hoje não houve a assinatura, apesar do prazo ser de 30 dias. Denunciam que o ministro prefere atender os setores contrários a demarcação, dentre eles o governo do estado de Santa Catarina.

            Dezenas de carta de desagravo e repúdio foram encaminhadas a revista veja.

 

Cimi Sul- Equipe Florianópolis

Clovis Brighenti
Osmarina de Oliveira


 

 

Senhor Diretor de Redação:

          O jornalista José Edward na matéria "Made in Paraguai" (Veja 1999, de 17/03/07) extrapolou todas as regras do bom jornalismo. Sua matéria está eivada de erros históricos e antropológicos além de dar uma visão extremamente estereotipada em relação aos Guarani do Morro do Cavalos, à Funai e aos antropólogos.
          Assim sendo encareço que V.Sª abrigue minha indignada manifestação.

Professor Emérito (UFSC) Sílvio Coelho dos Santos

Coordenador do Núcleo de Estudos de Povos Indígenas, UFSC, (Prédio do Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Campus Universitário - Trindade – Florianópolis/SC).

Ex-Presidente da Associação Brasileira de Antropologia;
Ex-Secretário Regional da SBPC;
Pesquisador Sênior do CNPq.


 

 

Sr. Editor

        Ao ler hoje a reportagem Made in Paraguai, fui tomada de revolta pela forma como esta foi elaborada. Há ali uma construção claramente xenófoba, além de leviana, o que sempre deve ser rechaçado por uma revista do naipe de VEJA, sobretudo quando se trata de índios guaranis que, como sabemos, vivem em centenas de aldeias situadas no Paraguai, Argentina e Brasil.
          Ressalto, entretanto, um aspecto importante: o jornalista José Edward menciona a antropóloga Maria Inês Ladeira e diz que a mesma foi procurada para explicar o seu estudo. Pergunto se o autor da matéria leu esse relatório da terra indígena aprovado pela Funai, uma vez que a conjuntura parece ser bastante complexa, somando questões que envolvem a arqueologia, a história, a antropologia, a duplicação da rodovia BR 101, o parque ecológico da Serra do Tabuleiro, entre outras.
          Impossível conquistar a credibilidade junto aos leitores de um texto com tamanha denúncia, quando se apresenta apenas um lado da questão.

          Atenciosamente
 
Marianna Kutassy
Produtora Cultural
Niterói/RJ


 

 

 

        Venho por meio desta repudiar a matéria veiculada nesta revista sobre o povo Guarani em Santa Catarina por abordar de forma preconceituosa e tendenciosa  uma importante questão transnacional.

Adriana Biller Aparício
advogada e mestranda em Direito, Estado e Sociedade pela UFSC


 

 

 

Sr. Editor,

          Lamentavelmente a matéria Made in Paraguai é um total desserviço à informação. Reúne uma gama de dados de forma inconseqüente e irresponsável, desconsiderando inteiramente a complexidade do contexto que envolve Terra Indígena Morro dos Cavalos – Parque Estadual da Serra do Tabuleiro – Duplicação da rodovia BR 101. Como antropóloga que acompanha o processo de regularização fundiária, ressalto alguns pontos, a título de esclarecimento à população:

          1) O povo Guarani tem várias denominações de subgrupos, que podem variar no espaço e no tempo, de acordo com os entendimentos dos próprios índios, apontados desde o século XVI. Desta forma, Carijó, Mbyá (e não embiá), Kaiová, Nhandeva, assim como outras denominações, como Tambeopé, Paim, Chiripá, Apapocúva, dizem respeito a este povo, o maior povo indígena do Brasil.
          2) O território de ocupação e mobilidade guarani é extenso (e sabidamente não-exclusivo), abrangendo países como o Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai. Isso está documentado através de pesquisas arqueológicas, históricas e etnográficas. Desta forma, é necessária a compreensão que os índios Guarani possuem percepção territorial distinta daquela das sociedades nacionais, percepção que integra a sua visão de mundo.
          3) A antropóloga Maria Inês Ladeira é reconhecida nacional e internacionalmente como autoridade acadêmica quanto aos Guarani, trabalhando há trinta anos junto a suas aldeias. Os próprios índios Guarani qualificam sua atuação como de total credibilidade e competência. Desta forma, alardear que seu trabalho relacionado a Morro dos Cavalos é uma fraude é, no mínimo, leviano e inaceitável.
          4) Há registros de sítios e evidências arqueológicas guarani em toda a região mencionada na matéria, bem como registros orais de famílias Guarani que ocupavam a região de Morro dos Cavalos há décadas, algumas de forma ininterrupta e outras temporariamente, antes mesmo da criação do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro.
          5) Os índios possuem direitos relacionados à duplicação da BR 101, que podem ser denominados como medidas mitigadoras deste projeto de desenvolvimento. As centrais estão relacionadas à questão fundiária. Desta forma, não se pode confundir o processo demarcatório da Terra Indígena de Morro dos Cavalos e o processo de aquisição de uma outra área, na qual apenas parcela da atual população de Morro dos Cavalos pretende viver.
          6) Uma das citadas fontes – Walter Alberto Bensousan – possui interesses particulares no impedimento da demarcação de Morro dos Cavalos. Em 1996 ajuizou ação de reintegração de posse (2a Vara Federal da Seção Judiciária de Florianópolis-SC), processo que em 2001 foi julgado extinto sem julgamento do mérito, com fundamento no artigo 267, VI, do Código de Processo Civil.

          Atenciosamente,

Maria Dorothea Post Darella

Museu Universitário/UFSC
Florianópolis/SC


 

 

 

           A VEJA, em sua edição 1999,  traz em suas páginas centrais a matéria Made in Paraguai que, no meu entender, é tendenciosa e preconceituosa.
           Ao que tudo indica aqui no litoral de Santa Catarina, o contexto vivido pelos índios guaranis da área de Morro dos Cavalos é dramático, mas não consegue ser devidamente explanado pela reportagem, o que faz com que a matéria instigue justamente o preconceito contra os índios.
           Sei que existem várias aldeias guaranis tanto no litoral quanto no interior deste estado, bem como em outros estados do Brasil, estendendo-se aos países Argentina e Paraguai.
           Este dado, por si, indica que os guaranis devem ter uma interpretação e uma vivência territorial bastante diferente daquela da população não-indígena. Assim que, falar em índios guaranis paraguaios, argentinos e brasileiros parece ser impróprio e leviano.

Beate Isleb
Turismóloga – Blumenau/SC


 

 

 

         O Museu Universitário da UFSC possui pesquisadores nas áreas de arqueologia, história, sociologia e antropologia que, ao se depararem com a matéria Mande in Paraguai (VEJA, edição 1999), a reputaram como absurdamente tendenciosa e preconceituosa. Desta forma, como diretor deste órgão, gostaria de esclarecer que a situação vivenciada pelos Guarani da área do Morro dos Cavalos é tão precária quanto complexa, o que não consegue ser explanado pela reportagem. Ao contrário, o jornalista induz a erros crassos que produzem posicionamentos contrários aos direitos indígenas neste país, o que é lastimável. É preciso considerar, por exemplo, que existem várias aldeias guarani no litoral e interior deste estado, bem como em outros estados do Brasil, estendendo-se aos países vizinhos Argentina, Paraguai e até recentemente Uruguai, o que comprova possuírem os Guarani uma interpretação e vivência territorial baseada em sua cosmologia. Sublinho igualmente que a antropóloga citada, Maria Inês Ladeira, conta com nosso mais profundo reconhecimento, por sua lisura, competência e atuação há décadas junto aos Guarani.

Gelci José Coelho
Historiador
Diretor do Museu Universitário da UFSC


 

 

Diretor de Redação:

Sr. José Edward:

         Na última edição da revista foi publicada uma matéria intitulada “Made in Paraguai”, da autoria do Sr. José Edward –utilizando os subsídios, em termos de informação e dados, do Sr. Walter Alberto Bensousan- na qual é tratado o tema polêmico sobre os processos CONSTITUCIONAIS de demarcação e homologação de Terras Indígenas em Santa Catarina e os obstáculos impostos por alguns que manifestam como proprietários das terras disputadas. Depois de ter lido várias vezes a matéria, não posso deixar de expressar minha indignação e repúdio pela falta de comprometimento jornalístico e imparcialidade contida no texto, assim como pelo desrespeito à população referida, os membros do subgrupo Mbyá, (e não embiás, conforme foram tratados na referida matéria), os quais são denominados como pertencentes à família lingüística e grupo étnico Guarani.
         O desconhecimento tanto de conceitos jurídicos, antropológicos e históricos, sem contar a forma evidentemente tendenciosa com que foi realizada a matéria, bem como a maneira como foram utilizados os dados e considerando os conflitos fundiários nos municípios catarinenses onde se localizam as aldeias guarani, especificamente Palhoça e a região do Morro dos Cavalos, a publicação desta evidencia a influência política do Sr. Walter Alberto Bensousan, que diz ser um dos proprietários da área onde está situada a aldeia indígena. Evidentemente, os dados foram manipulados de forma que servissem de base para a criação de um estereótipo dos Mbyá frente à opinião pública, taxando-os como “hermanos invasores”, ignorando a forma de vida, os costumes e as formas de organização social e territorial deste subgrupo Guarani, apresentando uma versão distorcida das características culturais e criando assim subsídios para a argumentação que visa impedir a continuidade dos processos de homologação de Terras Indígenas.
         Ao longo de 2006 tive a oportunidade de conviver com a população Mbyá-Guarani em três aldeias do litoral catarinense (Morro dos Cavalos, Massiambu e Cachoeira dos Inácios), a fim de conhecer os problemas territoriais enfrentados por este grupo perante os conflitos por terras, a construção do Gasoduto Bolívia-Brasil, a duplicação da BR 101 e o projeto de construção de linhas de transmissão elétrica pela Eletrosul. Como mestre em antropologia social, consegui registrar uma série de dados de campo entre os Mbyá destas aldeias, os quais foram constatados com pesquisas arqueológicas, históricas e etnográficas. O objetivo da carta que aqui apresento aos senhores é de mostrar as carências da matéria jornalística, as inconsistências dos dados expressados pelos informantes, a manipulação das fontes, o desconhecimento dos conceitos jurídicos e antropológicos dentro da política indigenista e a forma tendenciosa com que foram utilizados os dados.
         Em primeiro lugar, o termo Carijó foi uma imposição terminológica dada pelos primeiros conquistadores e colonizadores, que foram espanhóis e franceses (e não portugueses, conforme referencia a matéria) para a população nativa que habitava o litoral sul do Brasil antes do século XVI. De forma genérica, o termo Carijó refere-se ao conjunto de subgrupos guarani, cuja população estendia-se pelos atuais estados meridionais de Brasil, o oriente de Paraguai e o nordeste de Argentina e Uruguai, conforme as pesquisas arqueológicas e os registros históricos proporcionados pelos primeiros cronistas dos séculos XVI e XVII (Gonneville, 1504; Solís, 1515; Alexo Garcia, 1512; Cabeza de Vaca, 1541). Na tentativa de atacar a tese de Maria Inês Ladeira que defende a ocupação guarani como parte do território tradicional do grupo indígena, a matéria aqui referida emprega o depoimento do promotor José Eduardo Cardoso, que manifesta, sem nenhum fundamento, que “os carijós tinham características físicas e culturais distintas das dos embiás e estão extintos”. O que foi extinto foi o termo Carijó para nos referirmos ao conjunto de subgrupos Guarani, pois este grupo sempre esteve presente, tanto no Brasil quanto nos países vizinhos, e na medida em que foi sendo ampliado o conhecimento acerca de suas parcialidades (Mbyá, Nhandeva-Xiripa-Avá, Kaiowá, Guarayo, Paï Tavytera), passaram a ser reconhecidos a partir de suas próprias classificações e não mais pelas nossas categorias impostas. Dentro desta mesma problemática, o jornalista tenta argumentar que a Funai, por influência de antropólogos e ONG’s, “planeja transformar o local [o Morro dos Cavalos, a qual será afetada pela duplicação da BR 101] em reserva indígena”, ao mesmo tempo em que manifesta que a Funai permitiu que o Departamento Nacional de Infra-Estrutura de Transportes  “construa túneis sob Morro dos Cavalos para não incomodar os hermanos invasores”. Sendo este um dos enunciados mais preconceituosos contidos na matéria, além de mostrar o pleno desconhecimento da organização social mbyá-guarani baseada na mobilidade espacial (sendo esta freqüentemente confundida com nomadismo, pois uma vez que membros do grupo decidem se deslocar, os antigos assentamentos dificilmente são totalmente abandonados), o jornalista também mostra seu desconhecimento sobre a diferença entre Reserva Indígena e Terra Indígena. Os depoimentos proporcionados por Mbyá e registrados no texto referido mostram uma clara manipulação, como por exemplo o depoimento de Augusto da Silva Karai Tataendy, que segundo o autor da matéria afirma ser paraguaio. Meus registros de campo, assim como outras pesquisas, demonstram que Augusto da Silva nasceu em Mangueirinha, Terra Indígena localizada no estado de Paraná, ou seja, que ele é Mbyá e ao mesmo tempo brasileiro, como consta na sua carteira de identidade. O argumento utilizado para caracterizar aos Mbyá como “estrangeiros” e “invasores”, além de ser vergonhoso, é inconsistente, pois no Brasil habitam cerca de 4.400 Mbyá. Nas aldeias do litoral de Santa Catarina, a população guarani é de 768 aproximadamente, sendo em sua maioria nascidos dentro de território brasileiro, como foi constatado através do registro de campo.
         O objetivo da matéria publicada é de interesse político que beneficia mais aos proprietários particulares que vêem uma porção de seus interesses prejudicados, com uma posição evidentemente preconceituosa e racista sobre uma parte da população BRASILEIRA (os índios no Brasil). Esta publicação é uma afronta direta aos direitos indígenas (por não dizer também a certos processos constitucionais), e fere gravemente os logros alcançados na luta pelo reconhecimento destes direitos e as agências que os apóiam, tentando desvirtuar os fatos e os contextos, influindo uma visão negativa dos indígenas entre a opinião pública, sem contar o desprestígio sobre a atuação de instituições acadêmicas e não governamentais.
         Para finalizar, considero que o texto aqui referido carece do posicionamento das pessoas afetadas, principalmente dos próprios Mbyá. A matéria não consta que a precariedade nas aldeias Guarani (assim como da maioria de outras populações indígenas) se deve ao desmatamento desmesurado, a políticas públicas incorretas (incluo também as políticas indigenistas), a pressão da sociedade dominante que historicamente tem contribuído para a desterritorialização dos espaços ocupados pelas sociedades indígenas, e aos interesses de proprietários regionais. Um dos problemas ainda por resolver (e que talvez seja o mais positivo da matéria, pois é um dos principais argumentos) refere-se ao tratamento de populações nativas em fronteiras nacionais. Quando as populações nativas podem servir aos interesses do Estado e da sociedade dominante, então estes são chamados para defender as fronteiras nacionais, como é no caso de populações indígenas que transitam entre as fronteiras dos estados brasileiros de Acre, Amazonas e Roraima, e os países vizinhos, criando “milícias indígenas” comandadas pelo exército brasileiro, por fazendeiros ou garimpeiros regionais na defesa de seus territórios e interesses particulares. Por outro lado, não se pode esquecer que a população de Santa Catarina (assim como dos outros estados do sul do Brasil) foi formada através das políticas de colonização impulsionadas pelo Estado brasileiro a finais do século XIX e inícios do XX, sendo que os registros da presença guarani nestes espaços datam de muitos séculos antes da chegada dos migrantes açorianos, alemães, italianos e outros migrantes europeus. A falta de registros históricos da presença Mbyá-Guarani nos séculos XVIII-XIX se deve a nosso próprio desconhecimento, mas isto não significa seu desaparecimento ou extinção enquanto grupo étnico. Por outro lado, no passado o Brasil já entregou terras para estrangeiros e migrantes, dentro de uma política de colonização que hoje caracteriza à população dos estados sulistas, mesma que hoje reclama ser “nativa” perante grupos que demonstram uma ocupação mais antiga.

         Atenciosamente:

Sergio Eduardo Carrera Quezada
Mestre em Antropologia Social, UFSC


 

 

Prezados Senhores,

         Venho manifestar minha indignação e repúdio à reportagem “Made in Paraguai” sobre os índios Guarani que vivem no Morro dos Cavalos, publicada no n. 1999 do dia 14 de março de 2007.
         Sou professora da Universidade Federal de Santa Catarina e faço pesquisa na área da saúde nessa comunidade indígena. Lá vivem em torno de 30 famílias (aproximadamente 150 pessoas), sendo que a maioria é nascida no Brasil, mantendo laços de parentesco com índios Guarani residentes em Terras Indígenas do litoral das regiões sul e sudeste, incluindo ainda parentes em Terras Indígenas do interior do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. Considerando que a região citada está localizada no belo litoral de Santa Catarina, próxima a Florianópolis e, portanto, com grande potencial para a especulação imobiliária, turística, comercial e industrial, devemos questionar quais são os reais interesses não-indígenas em torno da área.

Eliana Elisabeth Diehl
Professora doutora da Universidade Federal de Santa Catarina.
Departamento de Ciências Farmacêuticas, Centro de Ciências da Saúde, UFSC
Campus Universitário, Florianópolis, SC.


 

 

        Gostaria de parabenizar a Revista Veja pela reportagem MADE IN PARAGUAI, publicada na revista de 14/03/2007. Esta reportagem conseguiu jogar no lixo mais de 30 anos de produção antropológica brasileira, feita nas melhores Universidades do Brasil.
         Sabemos que os meios de comunicação não são imparciais, mas esconder-se atrás de uma pretensa parcialidade para publicar uma reportagem tão mal elaborada e mal intencionada, feita a partir de uma pesquisa que um aluno de ensino fundamental faria melhor, é um absurdo. O repórter José Edward ou agiu de má fé, com intenções escusas por trás da reportagem, ou é um péssimo repórter e sugiro então à Revista Veja que o demita imediatamente. Como imagino que essa última opção não seja a que melhor retrata a situação, parece claro que setores que têm grandes interesses em não demarcar terras indígenas no Estado de Santa Catarina "encomendaram" essa reportagem. Um desses setores é a iniciativa privada, que embalada pela especulação imobiliária, têm planos mirabolantes de eco-turismo e coisas do gênero para o local. O outro setor é o próprio Governo do Estado que além de não querer contrariar os interesses do setor de turismo, um dos mais proeminentes de Santa Catarina, ainda se interessa pelos impostos que a exploração da área pode trazer. Em primeiro lugar: embias e carijós não existem e nunca existiram.  Existem sim indígenas da etnia  guarani. No século  XVI, quando os portugueses aqui chegaram, obviamente não existia nenhum estudo sobre as populações indígenas. Desta forma, a designação das populações nativas era arbitrária, pois os portugueses não falavam as línguas nativas e em geral essas populações não tinham auto-denominações. Assim, é comum encontrar etnônimos pejorativos, quando apontados por etnias rivais, ou senão etnônimos que significam "ser humano", como é o caso de um sub-grupo guarani que é chamado de mbyá (a pronuncia desta palavra usa fonemas que não tem equivalentes em português), que  está entre as chamadas parcialidades guarani, e que parece que são os embiás referidos na reportagem. Além dos mbyás, foram citados na reportagem os nhandeva e os kaiowas, duas outras parcialidades guarani. Os guarani mbyá ocupam pelo menos seis estados no sul e sudeste do Brasil, além de áreas na Argentina e no Paraguai. Poucos locais ocupados por estes indígenas são ideais para uma ocupação tradicional, seja no Brasil, na Argentina ou no Paraguai. Processos históricos de colonização fizeram com que grande parte da população indígena da América do Sul fosse dizimada por guerras, doenças ou fome e a parte sobrevivente foi sumariamente expulsa das terras que tinham qualquer valor para a agricultura ou para especulação imobiliária. Ficaram então reclusos em áreas sem valor para a agricultura, separadas umas das outras por cidades, plantações ou acidentes geográficos. Assim se conformou a ocupação indígena principalmente no sul e no sudeste do Brasil, onde a terra tem o maior valor comercial se comparado com outras regiões. Os guarani ficaram então ilhados em um oceano de “civilização”.
         Os guarani são conhecidos por seu constante deslocamentos, seja de indivíduos entre aldeias, seja de aldeias inteiras em busca de lugares mais propícios para se viver. Estes deslocamentos já são apontados em cartas de jesuítas dos séculos XVI e XVII como nos ensina Hélène Clastres que estudou os documentos jesuítas deste período. No início deste século Kurt Nimuendaju, eminente etnólogo alemão acompanhou migrações de um grupo guarani, desde o Rio Paraguai, território reconhecido dos guarani, até o litoral de São Paulo. Hoje os guarani continuam se deslocando, por razões que são explicitadas nos trabalhos citados acima e nas centenas de trabalhos posteriores a eles, como podemos ver em estudos bibliográficos sobre o tema feitos por Bartolomeu Meliá e Eduardo Viveiros de Castro, antropólogos de renome nacional e internacional. Estas razões fazem parte do modo de compreensão que os guarani tem do mundo, e que não pode ser comparado com a visão de mundo ocidental.
         Assim, se existem guaranis que são nascidos em outros países residindo no Brasil isso se deve ao fato de que eles se deslocam muito entre aldeias. Da mesma forma é possível encontrar guaranis nascidos no Brasil residindo no Paraguai e na Argentina. O que mais importa aqui não é sua nacionalidade, mas seu pertencimento a um determinado grupo, que por razões impostas por nós se chama guarani, pois essa necessidade de auto-denominação veio junto com os europeus, assim como a necessidade de se dividir o espaço em países, fruto da criação do Estado Nação na Europa pós feudalismo. Assim os guarani não são brasileiros, não são argentinos e nem paraguaios. Eles são guaranis. E entender isso é respeitar efetivamente a pluralidade cultural presente aqui no Brasil, coisa que a reportagem da Revista Veja fez questão de anular, colocando questões completamente tendenciosas para confirmar uma tese que serve a interesses próprios de alguns grupos relacionados à questão da demarcação de terras indígenas. A questão importante no caso não é o local de nascimento dos indígenas e sim a possibilidade que eles podem ter de usufruir de um território de maneira tradicional, território esse que estudos arqueológicos mostram com clareza terem pertencidos aos ascendentes das populações guarani atuais.
         Sem mais e dados os erros crassos cometidos na reportagem referida, sugiro que a Veja ofereça espaço para que seja publicado um direito de resposta, redigido por jornalistas apontados pela comunidade indígena.

Moreno Saraiva Martins

Mestrando em Antropologia Social no Programa de Pós Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de Santa Catarina

 

 

À redação da Revista Veja,

         Escrevo para expressar meu estranhamento e espanto ao ler a reportagem assinada por José Edward. O que mais chamou a atenção é a pouca qualidade do texto jornalístico. É evidente a intenção de desqualificar os índios que vivem em Morro dos Cavalos. Essas pessoas (os índios Guarani), em condições difíceis de vida, e que esperam, pacífica e pacientemente pelo reconhecimento das autoridades e dos poderes nacionais para viverem dignamente, não merecem ser apontadas como coisas ou como estrangeiros ("hermanos" ou "paraguaios") como aparece no texto. O jornalista demonstra desrespeito aos índios também ao grafar intencionalmente sua autodenominação como "embiás" em substituição a Mbyá. O jornalista escreveu seu texto sem ter feito a lição de casa com o menor cuidado, ou seja, não pesquisou minimamente o assunto e demonstra isso com grande recorrência de equívocos. Não possui a mínima idéia do que seja tradicionalidade do ponto de vista jurídico ou antropológico. Há muitos povos indígenas que vivem em um território no qual se sobrepõem fronteiras políticas de países vizinhos e não cabe, em tais circunstâncias, identificá-los com qualquer nacionalidade (como é o caso dos Yanomami, seu território está em terras brasileiras e venezuelanas).
         Verifica-se que se trata de um trabalho de jornalismo ruim, desqualificado. É algo que evidentemente tenta ter visibilidade ou credibilidade da forma mais antiética possível: agredindo desnecessariamente os índios Mbyá de Morro dos Cavalos e a antropóloga Maria Inês Ladeira. Mais que isso, o jornalista transborda preconceitos, inverdades e racismos dos mais grosseiros. Enfim, um texto muito mal escrito e que destoa da qualidade da revista como um todo. Com isso, o texto cumpre um papel ruim, de desinformar e aumentar as dificuldades já tão grandes que essa população indígena vem enfrentando no sul do país.   

Valéria S. de Assis
Antropóloga e professora DFE – CCH
Universidade Estadual de Maringá/PR


 

 

Sr. Editor

         A Comissão de Apoio aos Povos Indígenas - CAPI, ONG situada em Florianópolis/SC, vem manifestar seu veemente repúdio à matéria Made in Paraguai, veiculada na edição 1999. Entende se tratar de matéria tendenciosa, preconceituosa, xenófoba, por desconsiderar a complexidade do mosaico relacionado à Terra Indígena Morro dos Cavalos, aos índios Guarani. Outrossim, a CAPI posiciona-se favoravelmente à divulgação de dados sobre populações indígenas quando as fontes possuem credibilidade e competência.

Silvia Maria de Oliveira
Coordenadora da Comissão de Apoio aos Povos Indígenas 

Florianópolis / SC

 

 

         Revolta, repúdio, indignação e todos os outros adjetivos que revelem o sentimento de rejeição a tudo que está escrito na matéria: "Made in Paraguai" veiculada na edição 1999 da Veja. Registro a minha indignação e repúdio ao repórter que escreveu a matéria e a revista por ter publicado uma matéria tão preconceituosa e mentirosa. Basta de perseguição aos Guarani, eles são tão brasileiros quanto o autor da matéria. Os povos indígenas neste país sofrem perseguições dos invasores desde o "período do descobrimento" expressa no início da matéria. Que descobrimento? Invasão dos colonizadores que não se cansam de perseguir os povos tradicionais e expropriar as suas vidas e o seu sossego. A revista Veja está cada vez mais tendenciosa, mentirosa, digna de ser ignorada. A imprensa deve servir para divulgar a verdade, é melhor obter mais informações e produzir matérias respeitáveis. O que acabei de ler foi uma matéria que denigre os índios Guarani e privilegia quem?
         Por esse tipo de matéria e por outras, que faz muito tempo que não gasto o meu dinheiro com essa revista.
         Respeitem os seres humanos!

Ismenia de Fátima Vieira
Mestre em Educação
Docente no Programa de Formação para professores Guarani

Florianópolis/SC

 

 

         Faço uso desta ferramenta para manifestar minha surpresa e indignação em relação à matéria veiculada na Revista Veja, edição 1999, sob o título: "Made in Paraguai".
         Surpresa e indignação pelo fato de uma revista do porte da Veja publicar matéria tendenciosa e com clara manifestação de parcialidade quando se refere aos assuntos indígenas, demonstrando total desconhecimento e desrespeito à diversidade cultural, quando vivemos num país pluriétnico.
         Não bastasse esse fato, o autor da reportagem comete inúmeros outros erros, como em relação à grafia dos sub-gupos guarani, desconhece a mobilidade territorial das populações indígenas e quando os trata por "hermanos" esquece-se que os indígenas já estavam aqui muito antes dos europeus aqui aportarem.
         Considero que as matérias para circularem nacionalmente como as matérias dessa revista, seus autores deveriam preocupar-se em esclarecer os fatos e não apenas em fazer matérias sensacionalistas.  

Profa. Dra. Ana Lúcia Vulfe Nötzold  
Coordenadora do LABHIN - Laboratório de História Indígena
Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC
Florianópolis SC


 

 

         Fiquei perplexa ao ler a reportagem "A Funai quer demarcar reserva para paraguaios", veiculada na revista VEJA, edição 1999, desta semana. As informações contidas a respeito do povo Guarani, que reside no Morro dos Cavalos, são errôneas e preconceituosas. Sem falar na falta de respeito com a antropóloga Maria Inês Ladeira, cujo trabalho sempre trilhou os caminhos da ética e da seriedade, principalmente, com relação aos povos indígenas com quem trabalha a muito tempo. Para falar a verdade, esperava mais profissionalismo desta revista, cuja principal função é pesquisar a verdade e não apresentar dados inverídicos.
         Onde a sociedade brasileira irá parar se continuarem a disseminar inverdades?
Florianópolis, 14 de março de 2007.

Cátia Weber
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação
Universidade Federal de Santa Catarina. São José/SC


 

 

Prezados senhores,

gostaria de externar meus votos veementes de repúdio à reportagem intitulada "Made in Paraguai" assinada pelo jornalista José Edward Lima. Trata-se de uma reportagem com dados recheados de preconceitos e inverdades que não apenas não contribui para informar corretamente o grande público sobre a complexa realidade dos povos indígenas como acirra ainda mais os preconceitos racistas e xenófobos contra minorias sociais e étnicas.
       O CTI é uma instituição séria e respeitada assim como a antropóloga Maria Inês Ladeira, reconhecida como uma das maiores autoridades acadêmicas sobre a etnia guarani. Quero deixar registrado meu protesto e minha indignação diante deste desrespeito à sociedade em geral e em especial aos povos indígenas.

Kimiye Tommasino

Antropóloga
Docente aposentada da Universidade Estadual de Londrina
Pesquisadora do Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações-Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Londrina

 

 

Prezados Senhores,

venho, com todo respeito, solicitar que os senhores possam refletir a respeito do artigo - Terra Indígena Morro dos Cavalos e índios Guaranis. Sou indiodescendente e conheço o sofrimento dos povos indígenas. O artigo não é positivo quanto à imagem dos povos indígenas. Os guaranis são um povo muito sofrido e perseguido. Suas terras foram historicamente tomadas pelos brancos e suas famílias dizimadas.

         Uma revista do porte da Veja, penso que merece fazer um artigo positivo que auxilie os povos indígenas e não que os prejudique. A aldeia morro dos cavalos, vem há muito tempo, batalhando para conseguir um território, para criar os seus filhos, que é um direito de todo ser humano.

Respeitosamente   

Ramon M Padilha
Consultor em desenvolvimento sócio-ambiental Assessor da SEMDE -
Secretaria de Desenvolvimento Econômico de Ipatinga-MG  
Ipatinga-MG


 

 

Carta de Repúdio ao Artigo do Repórter José Edward Publicado na Revista Veja de 14-03-2007 sobre a Terra Indígena Morro dos Cavalos-SC

Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações
Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História
Universidade Estadual de Maringá
Av. Colombo, 5790 - Bloco G-45
CEP 87020-900 - Maringá - PR
Fone: (42) 3261-4670
E-mail: lae@uem.br

           A reportagem intitulada “Made in Paraguai” assinada por José Edward merece o nosso mais veemente repúdio e indignação. O autor da matéria presta um desserviço à sociedade ao explicitar, de forma tendenciosa e caracterizada pela má fé contra uma instituição seríssima, o Centro de Trabalho Indigenista-CTI cujos profissionais sempre se pautaram pela competência científica, como é o caso de Maria Inês Ladeira. Esta profissional vem, há quase 30 anos pesquisando as comunidades guarani e seus trabalhos constituem referência nacional e internacional quando se trata dessa etnia.
           É lamentável que um periódico de grande circulação nacional, senão o maior (conforme dados divulgados pelo IVC Instituto Verificador de Circulação), possua em seus quadros, profissional com formação tão deficiente que, ao invés de informar correta e eticamente sobre questões cruciais de nossa sociedade, apresentou uma montagem recheada de falsidades e idéias estapafúrdias, contribuindo com o desenvolvimento de atitudes racistas e xenófobas  tão combatidas em nosso continente pelos principais organismos internacionais como a ONU, UNESCO, BANCO MUNDIAL, OEA, OMC, CEPAL e outros, em todos os documentos que tratam da questão indígena na atualidade. Uma revista que se pretende séria não poderia assumir uma linha ou manter em seus quadros profissionais contrários a projetos de reconhecimento, respeito à diversidade cultural e inclusão social que vêm sendo construídos por esses organismos juntamente com respeitadas instituições nacionais em toda a América Latina. Poderemos disponibilizar ao Conselho Editorial da Revista Veja inúmeras informações, imagens, documentos, registros de ações, publicações e pesquisas que temos procurado desenvolver para que a sociedade civil brasileira não receba informações falaciosas sobre os grupos indígenas e suas lutas pela sobrevivência e respeito.
           Nós, professores e pesquisadores do Programa Interdisciplinar de Estudos de Populações - Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Etno-História da Universidade Estadual de Maringá, queremos externar nossa solidariedade à colega Maria Inês Ladeira diante de tantas mentiras veiculadas com o objetivo claro de denegrir sua imagem, ela que é uma profissional conhecida e reconhecida nos meios acadêmicos e  a quem só temos a agradecer pelos conhecimentos que disponibilizou à sociedade brasileira por meio de diversas publicações sérias (basta olharmos seu currículo que é disponível a consulta pública via Plataforma Lattes),  pela enorme contribuição acadêmica,  pelo esforço e dedicação junto ao CTI como pesquisadora e pelo respeitável trabalho de intervenção social que realiza entre grupos da etnia Guarani.

Prof. Dr. Lúcio Tadeu Mota
Profa. Dra. Claudia Netto do Valle
Profa. Dra. Kimiye Tommasino
Prof. Dr. Marcos Rafael Nanni
Profa. Ms. Isabel Cristina Rodrigues
Profa. Ms. Rosângela Faustino
Prof Dra. Maria Aparecida Honório
Prof  Dra. Valéria de Assis
Darcy Souza – ASSINDI – Associação Indigenista de Maringá


 

 

À Equipe de Redação da Revista Veja,

         Vimos por meio deste, manifestarmos nosso repúdio à matéria da última edição (dia 14 de março de 2007) desta renomada revista, com o título "Made in Paraguai" elaborada por José Edward. Consideramos que tal matéria não retrata a realidade dos índios M'bya Guarani sobre o seu direito constitucional no que se refere aos processos demarcatórios de suas terras. Outro ponto, bem mais grave é o total desconhecimento sobre os processos migratórios dos grupos Guarani, nos territórios do Sul e Sudeste brasileiros. O autor da referida matéria, ao nosso ver, fere princípios éticos importantes - primeiro ao colocar-se de forma altamente discriminatória a questão indígena e as múltiplas problemáticas enfrentadas por essa população, e, ainda, sobre colegas antropólogos ao afirmar que Maria Inês Ladeira teria produzido uma "fraude" em sua tese. Por útlimo, nos chama muito a atenção o fato de um promotor, que deveria ser magnânimo e estar zelando pela busca da eqüidade fazer colocações sobre os M'bya sem uma base científica adequada.
         Solicitamos que haja uma espécie de "retratação" por parte desta renomada revista, que, assim como outros veículos de informação nacional, tem como principal tarefa divulgar de forma madura, ética, consistente - matérias pautadas na verdade e na realidade.

Att. Maria Conceição de Oliveira - médica e antropóloga
Florianópolis – SC

Lílian B.S. Rocha - enfermeira, especialista em saúde pública
Iguaçu – SC


 

Mais manifestações de repúdio á reportagem de Veja .

 

Centro de Trabalho Indigenista - SCLN 210 Bloco C Sala 217 - Brasília/DF cep 70.862-538 Fone: +55 (61) 3349-7769 Fax: ramal 210
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