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Ano I Nº 02 Setembro 2004 |
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Linha do Tempo Versão para impressão (formato PDF) É necessário Acrobat Reader. Clique aqui para fazer o download. O trabalho do CTI com os Guarani se iniciou com atividades escolares que davam seqüência a um projeto da FUNAI, desenvolvido por Maria Bernadette Franceschini entre os anos de 1977 e 1978, na aldeia “Vila Guarani”, no bairro de Parelheiros, São Paulo. Nesse período, foi construída uma pequena escola de madeira, pelos índios, e elaborada a primeira edição do material para alfabetização em português. Em 1978, Maria Inês Ladeira começou a dar aulas nessa escola. Em janeiro de 1979, essas atividades passaram a ser vinculadas ao CTI recém fundado, através do PEÑ – Projeto de Emergência Nhandeva, coordenado por Noemi Diaz Martinez e financiado pela PPM – Pão Para o Mundo. Nessa época o Fundo Samuel apoiava um pequeno projeto comunitário aos Guarani realizado por Lília Valle, na aldeia Boa Esperança, município de Aracruz - Espírito Santo. Através de trechos de relatórios das atividades realizadas pelo CTI nas aldeias Guarani desde 1978, podemos reconstituir um pouco da nossa história: - O processo de alfabetização na aldeia da Barragem iniciou-se em virtude de uma forte solicitação feita pelo grupo... - Percebemos a necessidade de uma escola voltada aos seus interesses e preocupações em adquirir conhecimento para facilitar seu relacionamento com a sociedade envolvente e responder à visível pressão externa dos moradores brancos vizinhos, ou de São Paulo, a respeito da “Educação das crianças”. - A urgência de uma escola dentro da aldeia e controlada pela própria comunidade, devido às pressões próprias de São Paulo, a que os Guarani da Barragem estão constantemente submetidos... evita deixar vago um “espaço” facilmente ocupável nas mesmas condições anteriores: inconstância e inadequação dos métodos. - Nesse período foi possível perceber a intricada rede de parentesco entre aldeias de diversas regiões e como, através dela se operavam os intercâmbios econômicos (sementes, cultivos, matéria prima para artesanato), a comunicação entre aldeias e os serviços “religiosos” (curas, rituais, etc). - Em 1980, Maria Inês Ladeira e Lilia Valle encaminham a OXFAM um projeto que tinha como objetivo dar continuidade ao trabalho do CTI com os Guarani de Parelheiros SP e de Santa Cruz, ES. O projeto visa assegurar e reforçar as bases Guarani estabelecidas na faixa litorânea de São Paulo ao Espírito Santo. Estas bases são pequenos núcleos de famílias que tem sua origem ligada ao fluxo migratório que integra os Guarani da Argentina, do Paraguai e do interior do sul do Brasil para a Serra do Mar. - (...) Devido à relação que os Mbyá mantém com a terra, o modo como a utilizam, coloca-os muitas vezes em situação delicada frente à sociedade dominante. A procura de fixação junto a Serra do Mar, que consideram como território tradicional, com o passar dos anos, foi tornando-se mais difícil por serem estas terras cada vez mais cobiçadas pelos brancos. - A questão das terras para os Guarani é crítica.
De acordo com a legislação brasileira as comunidades indígenas
têm direitos territoriais sobre áreas de ocupação
antiga, sobre o que se convencionou chamar de “habitat tradicional”.
Desta forma, grande parte dos Guarani que estão em processo de
migração, justamente a procura de terras onde possam viver,
ficam excluídos dos benefícios da lei. A legislação
em vigor não leva em consideração nem os dinamismos
internos de cada cultura nem as situações concretas de opressão,
quando são desalojados de suas terras. - A continuidade do trabalho em Santa Cruz e Parelheiros estava ligada à perspectiva de estimular a comunicação com os outros núcleos do litoral. Àqueles que estão mais vinculados aos Guarani de Parelheiros : M’Boi Mirim, Rio Branco, Rio Silveira e Ubatuba, foi apresentado a possibilidade de um apoio agrícola. (Trechos do Projeto do CTI encaminhado à Oxfam no início de 1980) Levando em consideração as condições de cada
aldeia, procuramos incentivar os meios econômicos de subsistência,
a fim de melhorar a qualidade de vida dos Guarani, conforme seus padrões
e solicitações. (Trecho do Segundo Relatório sobre o desenvolvimento do Projeto Guarani: Aldeias de São Paulo (capital e litoral) setembro de 1981) A partir do final do ano de 1981 foram ativadas as questões legais
relativas às terras das aldeias Guarani de São Paulo. Os
advogados, integrados ao CTI em setembro de 1981, tinham como um dos propósitos
principais atuar junto aos Guarani. Devido à peculiaridade do tratamento
religioso que estes índios dispensam às terras e às
inúmeras irregularidades a que estas estão sujeitas, o acompanhamento
de um advogado tornou-se imprescindível. O trabalho jurídico
em relação às terras foi cada vez mais tomando corpo
aquele ano. (Trecho do 3º relatório – outubro de 1981 a agosto de 1982) Em 1983, a continuidade do trabalho concentrou-se nem torno da questão
jurídica das Terras Guarani do Estado de São Paulo e no
aspecto econômico, em torno das roças de subsistência
e do intercambio entre aldeias. Neste ano, foi possível o encaminhamento
de um projeto à Secretaria do Interior do Governo de São
Paulo, que resultou, na incorporação dos trabalhos de demarcação
das terras Guarani pela Equipe de Resoluções de Conflitos
de Terra da SUDELPA – Superintendência do Desenvolvimento
do Litoral Paulista. (Trecho do relatório de Justificativa de orçamento – Juno 1988-maio 1989) Até o ano de 1988 a ênfase dos trabalhos de demarcação foi das aldeias dos estados de São Paulo e Rio de Janeiro. A partir de 1989 além de participar de várias questões que envolvem as aldeias com as quais trabalhamos há muitos anos, tivemos a oportunidade de acompanhar o movimento dos Mbyá em busca de terras ou de recuperação de antigas áreas. Este movimento está presente em grupos familiares de várias aldeias e comprova que o processo de reconquista de suas terras na Serra do Mar tem se reforçado. Nesse sentido, no ano de 1990 o trabalho foi concentrado nas aldeias do litoral do Paraná e posteriormente na aldeia Aguapeú no litoral sul de São Paulo. Ainda em 1990 foi encaminhado à FUNAI e IBAMA Relatório Antropológico sobre as aldeias Guarani da qual gerou a demarcação da Ilha da Cotinga. Em 1991, em companhia da família do cacique da Ilha da Cotinga (PR), foi realizada uma viagem para levantamento das aldeias Guarani no litoral de Santa Catarina. Os resultados desse levantamento foram encaminhados à Funai e originaram os primeiros procedimentos para reconhecimento dessas aldeias. “Nos anos de 1991, 1992, 1993, o CTI tem atuado na defesa e regularização fundiária dos territórios dos grupos indígenas com os quais trabalha, garantindo orientação jurídica e antropológica para todas as questões relativas à confirmação de seus direitos sobre a terra que ocupam , o monitoramento da regularização administrativa destes territórios, o incentivo e a viabilização de auto-demarcações, assim como assessoria em eventuais processos demarcatórios. Atividades previstas: - viagens às aldeias Guarani do litoral e do interior do RS, próximas à Argentina, que abrigam famílias Mbyá em processo migratório. Reunir documentação existente sobre a ocupação Guarani no RS. - Atualizar os levantamentos realizados pelo CTI no litoral do estado de Santa Catarina e Paraná. Identificar as áreas ocupadas pelos Guarani. - realizar levantamento de antigas aldeias no litoral sul do estado de São Paulo. Levantar o histórico e identificar as áreas ainda não delimitadas. -acompanhar o processo de reocupação de aldeias de famílias Mbyá alocadas em Parati e Angra dos Reis. - viagens de reconhecimento das aldeias Guarani em Tocantins , Marabá (PA) e Maranhão (MA). -apoiar as atividades de roça nas aldeias que se encontram em processo de identificação. -apoio econômico às famílias que estão reocupando aldeias antigas. -detalhar alternativas de subsistência dentro das próprias aldeias.” (Trecho do relatório Projeto Guarani 1991/1992/1993) Em julho de 1993 visitamos algumas aldeias Guarani em Misiones (Argentina)
onde contatamos alguns líderes para um eventual debate sobre o
território Guarani Mbyá. - visitamos as famílias Guarani que vivem na área Gavião Mãe Maria em Marabá (estado do Pará) que se encontram com serio problema para encontrarem uma área na região, onde possam se estabelecer. - Durante o período 1993/1994 realizamos laudos antropológicos das aldeias de Parati Mirim, Araponga, Bracuí, Aguapeú e Região Lagunar Estuarina de Iguape-Paranaguá, iniciando as atividades na aldeia da Ilha do Cardoso” (Trecho do Relatório DKA 1992/1994) Entre 1995 e 1996 pudemos acompanhar e apoiar um grupo Guarani em Marabá
(PA) na criação de uma Terra Guarani e no estreitamento
de suas relações com famílias das aldeias da região
sudeste. Em 1996 tem inicio o Projeto apoiado pela KFS atual H3000. O Projeto “Recuperação Ambiental de Terras e Subsistência do Povo Guarani” dá continuidade ao que foi anteriormente desenvolvido e tem como princípio a interdisciplinaridade, através da estreita relação existente entre a antropologia, a etnografia e a agronomia no diagnóstico e na solução dos problemas alimentares e ambientais das comunidades Guarani envolvidas. Ele foi iniciado em maio de 1996, mas aldeias do Rio Branco (Cananéia), Ilha do Cardoso, Aguapeú (Mongaguá), Parati-Mirim e Araponga (Rio de Janeiro) e tem como objetivo a redução da dependência externa das aldeias em alimentos básicos, através da otimização do sistema agrícola tradicional e da ampliação das alternativas de manejo da área a partir da recuperação ambiental direcionada. No primeiro ano do projeto foi muito importante para se compreender a dinâmica de produção de cada comunidade, suas expectativas e o potencial físico e a qualidade de solo de cada área e região onde trabalhamos. (Trecho do relatório de atividades do ano de 1996, encaminhado a KFS) O Projeto propõe a melhoria das terras e da qualidade de vida
do povo Guarani no litoral. O projeto visa inventariar, discutir e implementar
com as comunidades Guarani envolvidas, alternativas que lhes permitam
manter a sua autonomia através de suas atividades de subsistência
e da utilização sustentada dos recursos naturais de suas
terras e que sejam compatíveis com seus conhecimentos e tradições.
O projeto irá atuar junto às comunidades Guarani do litoral,
sobretudo naquelas mais críticas com relação à
regularização fundiária ou à situação
ambiental. Dando continuidade do Projeto pudemos sistematizar as ações
de maneira mais eficaz e com segurança. Estendemos às atividades
de apoio agrícolas à todas as aldeias do Vale do Ribeira
nessas aldeias com o fornecimento de cultivares agrícolas, equipamentos
e insumos necessários ao plantio e colheita e demais tratos culturais.
Um dos objetivos do trabalho de apoio à essas atividades agrícolas
consiste em fornecer as sementes dos cultivares agrícolas anuais
(milho, feijão) de acordo com o calendário agrícola
Guarani. |
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