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Linha do Tempo
O primeiro projeto do CTI : o “PROJETO KRAHÔ”
Estamos em 1979 e o CTI recém fundado consegue um recurso da PPM
( Pão para o Mundo/Bröt für die Welt) para um apoio aos
Mãkraré-Krahô. A relação e o trabalho
junto a este povo tem início em 1975 quando Gilberto Azanha é
convidado pela FUNAI para coordenar entre os Krahô o “Projeto
de Desenvolvimento Comunitário” e Maria Elisa Ladeira
o “Programa de Educação”. Na época
a FUNAI estava preocupada com a situação que ela considerava
como de extrema penúria. Mas a proposta de trabalho levada por
Gilberto e Maria Elisa junto ao órgão indigenista era muito
revolucionária para a época e em 1976 eles são afastados
da FUNAI.
Leiam trechos do relatório enviado em 1980 à PPM onde parte
desta história é contada
“Histórico:
Os Krahô (população de 700 índios) mantêm
contato permanente com um segmento da população brasileira
dedicada à pequena criação de gado que penetrou a
região habitada por estes índios em meados do século
XVIII. Até 1941, os Krahô dispunham de um território
sem fronteiras definidas, que, apesar de pouco a pouco ocupado pelos regionais
e seu gado, permitiria que mantivessem sua vida tradicional de caçadores
semi-nômades.
Em 1941 foram atacados pelos fazendeiros vízinhos que tinham a
intenção de reprimir o roubo e a matança do gado
pelos índios. Além de 25 mortos, todos índios, o
massacre teve uma consequêmcia importante, que alterou a história
do contato até então vivida pelos Krahô: a criação
do posto do Serviço de Proteção aos Índios
(SPI, extinto em 1967) numa área de 320.000 hectares que foi doada
pelo Estado de Goiás para o usufruto dos Krahô. Ao se colocarem
sob a proteção do posto – o que no momento lhes parecia
a única alternativa de sobrevivência – os Krahô
aceitaram e reconheceram a sua derrota, perdendo a autonamia que ainda
dispunham.
A maioria dos Krahô de hoje acredita que sem a proteção
do posto serão novamente atacados e mortos e, mais ou menos condicionam
a sua sobrevivência, como grupo diferenciado da população
regional, à presença de um funcionário da FUNAI.
Nem mesmo o fato das dezenas de ‘chefes’ – brancos –
que passaram pelo posto não lhes concederam senão discursos
sobre ‘O trabalho’, ‘A preguiça’, ‘O
atraso’, e de demonstrarem por todos os meios, seu nojo e repugnância
aos índios, alterou a conciência nascida do massacre, de
que viviam por concessão.
Os chefes dos postos sempre definiram o “interesse dos índios”
– que deveriam defender – do ponto de vista do branco. Por
este ponto de vista, o Krahô é visto como mão-de-obra
potencial que ocupa ‘improdutivamente’ uma terra boa e o que
é ‘melhor’ para o índio é ser branco,
reproduzir-se como tal. Esta reprodução deveria ser moldada
pelo sistema produtivo dominante: criação extensiva de gado
associada a roça de subsistência. Mas o Krahô ‘caça’
o gado, não cria, e somente faz grandes roçados se o clima
político interno for favorável. Frustrados nas suas esperanças
de fazer dos Krahô ‘regionais’, todos os chefes do posto,
depois de algum tempo, acabam deixando os Krahô como sempre estiveram,
isto é, na marginalidade de ser índio, Krahô.
Limitados em territórios exíguos para as exigências
de um grupo semi-nômades e culturalmente adaptado à aridez
do cerrado, os Krahô tiveram de buscar outras alternativas de subsistência
que lhes permitissem fazer a esta nova situação. Como um
grupo ainda caçador, optaram pela venda de arara e outros pássaros
e pela prestação de serviços entre os brancos vizinhos
para completar – mesmo precariamente – e pela compra, o baixo
nível de produção das suas roças e a escassez
de caça.
Andamento:
Uma aldeia Krahô somente produz para dar conta de todas as suas
necessidades (de mantimentos, de dinheiro, etc....) se houver um clima
político favorável, se as lideranças estiverem suficientemente
fortes para agenciar, coletivamente, o trabalho despendido por cada família
elementar na sua subsistência. Em uma situação de
escassez relativa, o tempo maior na subsistência aumenta o peso
da família elementar na estrutura global da sociedade Krahô,
em detrimento dos grupos rituais, estes sim os responsáveis pela
ligação entre as diversas famílias que compõem
a aldeia. Nesta situação, o resultado é a dispersão
dos grupos familiares para completar sua subsistência (pela mendicância,
pequenos serviços nos moradores vizinhos, etc...). É somente
criando um nível relativo de abundância (de mantimentos,
de dinheiro) que torna-se possível a retomada da vida ritual e
a re-articulação dos grupos familiares.
Durante os 20 meses que puderam permanecer com os Krahô ( de julho
de 1975 a novembro de 1976), os antropólogos Gilberto Azanha e
Maria Elisa Ladeira e o indigenista Vincent Carelli procuraram trabalhar
no sentido de modificar as relações posto/índios,
desenvolvendo a estes a decisão quando as medidas que deveriam
ser tomadas em seu interesse; foi colocado à disposição
das lideranças os recursos necessários para os trabalhos
de roça. Disto resultou o fortalecimento das lideranças
que, nas duas safras do período, conseguiram agenciar coletivamente
os trabalhos de roça. Na primeira safra (75/76), algumas famílias
chegaram a vender arroz, que foi comprado pelos executores do projeto
e armazenado para servir como semente no plantio do ano seguinte, Neste
ano (76/77) os Krahô triplicaram a área cultivada e realizaram
todas as etapas do plantio (desde a derrubada da mata) coletivamente,
por equipes divididas segundo os grupos rituais, o que não ocorria
há vários anos. Depois do afastamento dos antropólogos
pela FUNAI, as lideranças perderam a força e a situação
nas aldeias regrediu completamente.
Mesmo depois de afastados do trabalho na área, o contato com as
lideranças Krahô, principalmente aquelas das aldeias do ‘Galheiro’
e ‘Santa Cruz’, teve prosseguimento. O líder João
Canuto esteve por duas vezes em São Paulo, em 1977 e fins de 1979.
Os antropólogos Gilberto Azanha e Maria Elisa Ladeira estiveram
por três meses em 1978, quando os líderes das duas aldeias
acima citadas propuseram a continuidade o trabalho sem a interferência
da FUNAI. Foi quando solicitou-se à PPM um Financiamento para um
projeto de apoio agrícola para ser desencadeado em junho/julho
de 1979.
A FUNAI, no entanto, negou a autorização para a entrada
na área Krahô dos antropólogos responsáveis
pelo projeto. Diante deste fato, foram até a cidade de Itacajá,
próxima à área, para discutir com líderes
das aldeias onde deveriam ser levado inicialmente o trabalho o que poderia
ser feito, dadas circunstâncias. Depois de 4 dias de reunião,
decidiu-se repassar diretamente para as lideranças indígenas
um pequeno auxílio (de Cr$64.000,00) que seria suficiente para
dar a cobertura necessária para que fosse feito o plano das roças
individuais já derrubadas. Todo o trabalho de limpeza das roças
assim como o plantio propriamente dito foi feito coletivamente.
Esta atitude de confiança nos índios teve um efeito político
importante, pois pela primeira vez na história recente dos Krahô,
alguns de seus líderes dispuseram de dinheiro para resolver um
trabalho comum para as suas aldeias (pois como parte da subsistência
o dinheiro é procurado individualmente e usado do mesmo modo) e,
o que é mais importante, sem a mediação dos brancos.
Em dezembro passado, o líder João Canuto esteve em São
Paulo para apresentar os resultados da aplicação do dinheiro
e as prestações de contas. Nesta oportunidade foi discutido
também a continuidade do plano e a programação para
1980.
Tão importante quanto o plantio, foi o fato destes líderes
terem visto que seriam capazes de melhorar as condições
de vida nas suas aldeias sem dependerem do posto, passando por cima da
falta de respeito, da má vontade e da incompetência dos funcionários
da FUNAI na área. Estes líderes não esperam mais
dos seus ‘protetores’ nenhuma iniciativa; mostraram-se capazes
de assumir o destino do seu grupo.”
Esta análise, feita há mais de vinte anos, continua norteando
as ações do CTI junto aos Timbira. Ao longo deste tempo,
o trabalho se estendeu dos Krahô para a totalidade do “Pais
Timbira”, no dizer de Nimuendaju.
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