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Associação
Brasileira de Antropologia comenta reportagem da revista
veja.
Nota da Comissão de Assuntos
Indígenas-CAI/ABA
Conheça
a opinião da SBPC
A
reportagem divulgada pelo último número da
revista Veja (ano 43 nº 18, de 05/05/2010), provocativamente
intitulada “Farra da Antropologia oportunista”,
acarretou uma ampla e profunda indignação
entre os antropólogos, especialmente aqueles que
pesquisam e trabalham com temas relacionados aos povos indígenas.
Dados quantitativos inteiramente equivocados e fantasiosos
(como o de que menos de 10% das terras estariam livres para
usos econômicos, pois 90% estariam em mãos
de indígenas, quilombolas e unidades ambientais!!!)
conjugam-se à sistemática deformação
da atuação dos antropólogos em processos
administrativos e jurídicos relativos a definição
de terras indígenas.
Afirmações
como a de que laudos e perícias seriam encomendados
pela FUNAI a antropólogos das ONGs e pagos em função
do número de indígenas e terras “identificadas”
(!) são obviamente falsas e irresponsáveis.
As perícias são contratações
realizadas pelos juízes visando subsidiar técnica
e cientificamente os casos em exame, como quaisquer outras
perícias usuais em procedimentos legais. Para isto
o juiz seleciona currículos e se apóia na
experiência da PGR e em consultas a ABA para a indicação
de profissionais habilitados. Quando a FUNAI seleciona antropólogos
para trabalhos antropológicos o faz seguindo os procedimentos
e cautelas da administração pública.
Os profissionais que realizam tais tarefas foram todos formados
e treinados nas universidades e programas de pós-graduação
existentes no país, como parte integrante do sistema
brasileiro de ciência e tecnologia. A imagem que a
reportagem tenta criar da política indigenista como
uma verdadeira terra de ninguém, ao sabor do arbítrio
e das negociatas, é um absurdo completo e tem apenas
por finalidade deslegitimar o direito de coletividades anteriormente
subalternizadas e marginalizadas.
Não
há qualquer esforço em ser analítico,
em ouvir os argumentos dos que ali foram violentamente criticados
e ridicularizados. A maneira insultuosa com que são
referidas diversas lideranças indígenas e
quilombolas, bem como truncadas as suas declarações,
também surpreende e causa revolta. Subtítulos
como “os novos canibais”, “macumbeiros
de cocar”, “teatrinho na praia”, “made
in Paraguai”, “os carambolas”, explicitam
o desprezo e o preconceito com que foram tratadas tais pessoas.
Enquanto nas criticas aos antropólogos raramente
são mencionados nomes (possivelmente para não
gerar demandas por direito de resposta), para os indígenas
o tratamento ultrajante é na maioria das vezes individualizado
e a pessoa agredida abertamente identificada. Algumas vezes
até isto vem acompanhado de foto.
A
linguagem utilizada é unicamente acusatória,
servindo-se extensamente da chacota, da difamação
e do desrespeito. As diversas situações abordadas
foram tratadas com extrema superficialidade, as descrições
de fatos assim como a colocação de adjetivos
ocorreram sempre de modo totalmente genérico e descontextualizado,
sem qualquer indicação de fontes. Um dos antropólogos
citado como supostamente endossando o ponto de vista dos
autores da reportagem afirmou taxativamente que não
concorda e jamais disse o que a revista lhe atribuiu, considerando
a matéria “repugnante”. O outro, que
foi presidente da FUNAI por 4 anos, critica duramente a
matéria e destaca igualmente que a citação
dele feita corresponde a “uma frase impronunciada”
e de “sentido desvirtuante” de sua própria
visão. Como comenta ironicamente o jornalista Luciano
Martins Costa, na edição de 03-05-2010 do
Observatório da Imprensa, “Veja acaba de inventar
a reserva de frases manipuladas”.
A
agressão sofrida pelos antropólogos não
é de maneira alguma nova nem os personagens envolvidos
são desconhecidos. Um breve sobrevôo dos últimos
anos evidencia isto. O antropólogo Stephen Baines
em 2006 concedeu uma longa entrevista a Veja sobre os índios
Waimiri-Atroari, população sobre a qual escrevera
anos antes sua tese de doutoramento. A matéria não
saiu, mas poucos meses depois, uma reportagem intitulada
“Os Falsos Índios”, publicada em 29 de
março de 2006, defendendo claramente os interesses
das grandes mineradoras e empresas hidroelétricas
em terras indígenas, inverteu de maneira grosseira
as declarações do antropólogo (pg.
87). Apesar dos insistentes pedidos do antropólogo
para retificação, sua carta de esclarecimento
jamais foi publicada pela revista. O autor da entrevista
não publicada e da reportagem era o Sr. Leonardo
Coutinho, um dos autores da matéria divulgada na
última semana pelo mesmo meio de comunicação.
Em
14-03-2007, na edição 1999, entre as pgs.
56 e 58, uma nova invectiva contra os indígenas foi
realizada pela Veja, agora visando o povo Guarani e tendo
como título “Made in Paraguai - A FUNAI tenta
demarcar área de Santa Catarina para índios
paraguaios, enquanto os do Brasil morrem de fome".
O autor era José Edward, parceiro de Leonardo Coutinho,
na matéria citada no parágrafo anterior. Curiosamente
um subtítulo foi repetido na matéria da semana
passada - "Made In Paraguay”. O então
presidente da ABA, Luis Roberto Cardoso de Oliveira, solicitou
o direito de resposta e encaminhou um texto à revista,
que nem sequer lhe respondeu.
Poucos
meses depois a revista Veja, em sua edição
2021, voltou à carga com grande sensacionalismo.
A matéria de 15-08-2007 era intitulada “Crimes
na Floresta – Muitas tribos brasileiras ainda matam
crianças e a FUNAI nada faz para impedir o infanticídio”
(pgs. 104-106). O subtítulo diz explicitamente que
o infanticídio não teria sido abandonado pelos
indígenas em razão do “apoio de antropólogos
e a tolerância da FUNAI." A matéria novamente
foi assinada pelo mesmo Leonardo Coutinho. Novamente o protesto
da ABA foi ignorado pela revista e pode circular apenas
através do site da entidade.
Em
suma, jornalismo opinativo não pode significar um
exercício impune da mentira nem práticas sistemáticas
de detratação sem admissão de direito
de resposta. O mérito de uma opinião decorre
de informação qualificada, de isenção
e equilíbrio. Ao menos no que concerne aos indígenas
as matérias elaboradas pela Veja, apenas requentam
informações velhas, descontextualizadas e
superficiais, assumindo as características de uma
campanha, orquestrada sempre pelos mesmos figurantes, que
procuram pela reiteração inculcar posturas
preconceituosas na opinião pública.
No
acima citado comentário do Observatório da
Imprensa o jornalista Luciano Martins Costa aprendeu muito
bem e expôs sinteticamente o argumento central da
revista no que concerne a assuntos indígenas: “A
revista afirma que existe uma organização
altamente articulada que se dedica a congelar grandes fatias
do território nacional, formada por organizações
não governamentais e apoiada por antropólogos.
Essa suposta "indústria da demarcação"
seria a grande ameaça ao futuro do Brasil.”
Este é o argumento constante que reúne não
só a matéria da semana passada, mas as intervenções
anteriores da revista sobre o tema. Os elos de continuidade
fazem lembrar uma verdadeira campanha.
Numa
análise minuciosa desta revista, realizada em seu
site, o jornalista Luis Nassif fala de uma perigosa proximidade
entre lobistas e repórteres nas revistas classificadas
como do estilo “neocon”. A presença de
“reporteres de dossier” é uma outra característica
deste tipo de revista. À luz destes comentários
caberia atentar para a lista de situações
onde a condição de indígenas é
sistematicamente questionada pela revista. Aí aparecem
os Anacés, que vivem no município de São
Gonçalo do Amarante (onde está o porto de
Pecem, no Ceará); os Guarani-M’bià,
confrontados por uma proposta do mega-investidor Eike Batista
de construção de um grande porto em Peruíbe,
São Paulo; e os mesmos Guaranis de Morro dos Cavalos
(SC), que lutam contra interesses poderosos, sendo qualificados
como “paraguaios” (tal como, aliás, os
seus parentes Kayowá e Nandevá do Mato Grosso
do Sul, em confronto com o agro-negócio pelo reconhecimento
de suas terras).
Como
o objetivo último é enfraquecer os direitos
indígenas (que naturalmente se materializam em disputas
concretas muitas vezes com poderosos interesses privados),
os alvos centrais destes ataques tornam-se os antropólogos,
os líderes indígenas e os seus aliados (a
matéria cita o Conselho Indigenista Missionário/CIMI
por várias vezes e sempre de forma igualmente desrespeitosa
e inadequada).
É
neste sentido que a CAI vem expressar sua posição
quanto a necessidade de uma responsabilização
legal dos praticantes de tal jornalismo, processando-os
por danos morais e difamação. Neste momento
a Presidência da ABA, está em conjunto com
seus assessores no campo jurídico, visando definir
a estratégia processual de intervenção
a seguir.
Dada
a assimetria de recursos existentes, contamos com a mobilização
dos antropólogos e de todos que se preocupam com
a defesa dos direitos indígenas para, através
de sites, listas na Internet, discussões e publicações
variadas, vir a contribuir para o esclarecimento da opinião
pública, anulando a ação nefasta das
matérias mentirosas acima mencionadas. Que não
devem ser vistas como episódios isolados, mas como
manifestações de um poder abusivo que pretende
inviabilizar o cumprimento de direitos constitucionais,
abafando as vozes das coletividades subalternizadas e cerceando
o livre debate e a reflexão dos cidadãos.
No que toca aos indígenas em especial a Veja tem
exercitado com inteira impunidade o direito de desinformar
a opinião pública, realimentar velhos estigmas
e preconceitos, e inculcar argumentos de encomenda que não
resistem a qualquer exame ou discussão.
João Pacheco de Oliveira
Coordenador da Comissão de Assuntos Indígenas/CAI
Disponível em: www.abant.org.br
ou em pdf
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