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População indígena no Amazonas pode ser dizimada pela hepatite

Fonte: Agência Carta Maior

Segundo estimativa do Conselho Indígena do Vale do Javari, a população da segunda maior reserva indígena brasileira pode desaparecer em 20 anos se a omissão da Funasa persistir na região. Nesta quarta, índios ocuparam a sede do órgão.

São Paulo - A saúde da população da segunda maior reserva indígena brasileira corre perigo. A epidemia de hepatite B e D ameaça os 3.500 índios do Vale do Javari, localizado no sudoeste do Amazonas. Se a situação persistir, a população que habita a região será dizimada em vinte anos, segundo estimativa do Conselho Indígena do Vale do Javari (Civaja).

Por causa dessa situação, nesta quarta-feira (30), índios da região ocuparam a sede da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão do Ministério da Saúde responsável pela saúde indígena desde 1999, em Atalaia do Norte (AM). Eles reivindicam a presença do presidente da Funasa e da Coordenadora de Atenção à Saúde Indígena. Segundo o Centro de Trabalho Indigenista (CTI), a manifestação é conseqüência do pouco caso e da inoperância com que vem sendo tratada a questão da saúde indígena no Vale do Javari. Os índios se revoltaram depois da ocorrência de mais duas mortes nesta semana, um homem de etnia Mayoruna e uma mulher da etnia Marubo. Pacífico, o movimento tem o objetivo de discutir a situação com os dirigentes máximos da Funasa e propor medidas eficazes para pôr fim ao surto de hepatites. Há pelo menos treze anos os casos de hepatite na região vêm causando várias mortes de crianças e adultos indígenas, mas o quadro se agravou ainda mais desde 2001.

Nos últimos três anos, foram registrados 24 óbitos por Síndrome Febril Íctero Hemorrágica Aguda (SFIHA), atribuídos à hepatite B e D. Só em 2003 ocorreram 17 mortes. É o que diz o dossiê "A Grave Situação das Hepatites B e D no Javari", elaborado pelo CTI, e encaminhado no início de junho ao Ministério da Saúde, à Fundação Nacional do Índio (Funai), ao Ministério Público Federal e à Secretaria Especial de Direitos Humanos. Até agora o CTI não recebeu nenhuma resposta ao documento, que contém histórico da doença na região, um alerta sobre o atual surto e possíveis ações para resolver o problema. A Funasa é acusada de negligência no dossiê. "Quantos índios mais terão que morrer para as autoridades se interessarem pelo caso?", questiona o ecólogo Hilton Nascimento, autor do documento. "Até agora nada foi feito e a Funasa não tem controle do que está acontecendo. Já faz mais de três anos que começou essa epidemia recente e as ações ainda não saíram do papel", denuncia. O novo surto de mortes por SFIHA se iniciou em junho de 2001, com a morte de três mulheres em menos de um mês, numa população de 120 pessoas, na aldeia dos Marubo.

Por insuficiência de dados, não foi possível determinar a exata causa dos óbitos, mas uma equipe da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas fez a sorologia de 64 habitantes da aldeia e detectou alta prevalência de hepatite B. A equipe recomendou que fosse realizada vacinação maciça da população do Vale do Javari e acompanhamento dos pacientes sabidamente infectados, pois havia grande chance de desenvolverem hepatite crônica. De acordo com o dossiê, desde 2001 as campanhas de vacinação têm sido irregulares, com falta de padronização e grandes intervalos entre as doses. Em 2003, a Funasa elaborou o "Plano de Ação Para a Vigilância e Controle das Hepatites Virais no Vale do Javari". Os prazos estipulados para algumas medidas já venceram e pouca coisa foi feita. Crise generalizadaO problema, segundo o Civaja, não se restringe a essa epidemia, mas abrange todo o atendimento de saúde.

A região conta com apenas um posto de saúde e dois funcionários para cuidar da população local. Em nota pública, o Civaja afirma que relatório da FUNAI do ano de 1982 revela a existência de hepatite na área indígena desde aquela época, mas até hoje as autoridades competentes não tomaram as providencias necessárias. "Estamos preocupados, já perdemos vários parentes nossos. Os órgãos competentes conhecem a situação, mas apenas falam. Exigimos que a Funasa assuma a saúde da população local", afirma Jorge Oliveira Duarte, indígena da etnia Marubo, coordenador geral do Civaja. A Funasa concorda que está longe de fazer todo o necessário para reverter o quadro atual, mas afirma que tem agido na região. "Na semana passada, realizamos uma vacinação de hepatite A e, no ano passado, uma de hepatite B, com toda a população. Temos feito acompanhamento dos casos crônicos, sorologia com as gestantes e imunização dos recém-nascidos. As ações realmente ainda não estão acontecendo de forma ideal, por isso estamos formando uma equipe de profissionais para entrar na área o mais rápido possível, de preferência no mês que vem. Queremos também colocar um hospital na região que possa fazer a sorologia", diz Iraneide Barros, Coordenadora Geral de Atenção à Saúde Indígena da Funasa. Segundo ela, é muito importante ter uma equipe que permaneça lá e acompanhe os casos de hepatite B.

No entanto, um dos maiores problemas que a Funasa enfrenta na região diz respeito à contratação dos profissionais de saúde. De acordo com Iraneide, alguns dos fatores que afastam esses profissionais do Vale do Javari são os baixos salários e o difícil acesso à população. No momento, há apenas uma médica para toda a região. "Não adianta dizer que a área é de difícil acesso, que estão tentando, que estão se estruturando. Onde estão os resultados depois de tanto tempo?", pergunta o autor do dossiê. A burocracia da Funasa é uma constante reclamação da população local. Sorologias que demoram até um ano para ficarem prontas, quatro barcos parados por pequenos defeitos e a demora de concretizar as medidas prometidas são alguns exemplos. "A questão da burocracia emperra um pouco as ações. A demora nas licitações atrasou o resultados das sorologias e a compra de novos barcos", justifica Iraneide. Dor, medo e tristeza A hepatite D, muito comum na região amazônica, costuma ser incurável e é muitas vezes fulminante. Ela se desenvolve a partir da hepatite B, variação da doença com que o paciente pode conviver bem por muito tempo. Ambas são transmitidas por meio de relações sexuais, transfusão sangüínea e podem ser passadas da mãe para o filho no momento do parto.

Síndrome Febril Íctero Hemorrágica Aguda (SFIHA) é o nome genérico dado a casos que apresentam sintomas como febre, icterícia (coloração amarela da pele) e vômito de sangue, quando não é possível identificar qual é a doença específica. "Dos 17 óbitos no ano passado, apenas quatro foram confirmados como de hepatite B, por meio de sorologia ou biópsia. Os outros treze também podem ser malária, febre amarela ou leptospirose", diz Iraneide. No entanto, de acordo com Hilton Nascimento, dizer que não se pode afirmar que as mortes foram causadas por hepatite é uma fuga. "Realmente só se pode confirmar com a biópsia, mas diante do histórico da região, em casos com esses sintomas, não há dúvidas. Pode-se concluir que é hepatite mesmo", diz. Segundo o dossiê, além da situação dramática representada pelo elevado número de mortes, as conseqüências para a geopolítica da região são enormes.

As famílias estão se separando e se deslocando para outras áreas, algumas aldeias estão sobrecarregadas, criando situações de insegurança alimentar, comunidades estão sendo abandonadas e o êxodo para a cidade aumentou. Além disso, a tensão interna entre os povos indígenas do Vale do Javari aumentou devido a acusações de feitiçaria como causa dos óbitos. "As cinco etnias [Marubo, Mayoruna, Kulina, Kanamari e Matis] têm uma relação muito próxima, por isso há um grande risco de extinção. Com essa situação e o descaso do governo para resolvê-la, começamos a pensar em formas de prevenção independentes da vacina. Talvez tenhamos que nos isolar novamente. Os pajés sempre disseram que não dá para morar na beira dos rios porque os homens brancos trazem essas doenças incuráveis", afirma o coordenador do Civaja, Jorge Marubo. Não há dados sobre o grau de contaminação da população, mas o Civaja estima que entre 40 e 70% da população tenha algum tipo de hepatite. "As mortes promovem dor, medo e tristeza que abalam a vida emocional dos indígenas e geram reflexos quase imediatos na organização deles.

A mais característica e mais definitiva é a separação de um grupo, seja por que este foge do feitiço ou por que o outro o repele. Hoje as dores de estômago, rim, cólicas menstruais e intestinais são traduzidas pelos indígenas como dores no fígado e isso lhes traz cotidianamente a lembrança dos últimos acontecimentos, ascende as discórdias e os coloca diariamente sob tensão", afirma o texto do dossiê.

Fernanda Sucupira

 

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