Data:18/08/2004
Fonte: Revista IstoÉ
Link: http://www.terra.com.br/istoe/1819/medicina/1819_perigo_na_floresta.htm
Mônica Tarantino
O Brasil tem pouco mais de 381 mil índios de aproximadamente 216 povos. Já foram
mais de um milhão e meio, antes do contato com o branco. E, infelizmente, a contar
pelo panorama na saúde indígena, a situação não é nada animadora. Segundo relatório
da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), do Ministério da Saúde, cerca de 1,5%
dos xavantes, na região Centro-Oeste, morreu em 2002 (últimos dados disponíveis).
Nada menos do que 74% eram menores de cinco anos. Na maioria, foram crianças
vítimas de desnutrição. De acordo com o mesmo documento, a tuberculose e a pneumonia
também estão entre as principais causas de óbitos entre os povos.
Muitas dessas vidas poderiam ser preservadas em condições de atendimento diferenciadas
das que existem. Até abril, a assistência à saúde indígena foi baseada em convênios
com organizações não-governamentais. Elas recebiam o dinheiro do governo e se
responsabilizavam pelo planejamento e execução das ações. Durante os quatro anos
em que o esquema vigorou, houve melhora de indicadores da saúde, como a redução
da mortalidade, em algumas áreas. Porém, denúncias sobre a péssima qualidade
do atendimento e má aplicação dos recursos em muitas áreas culminaram na troca
de Ricardo Chagas, responsável pela saúde dos índios na Funasa, pelo médico
Alexandre Padilha, em abril.
Vão-se os homens, continuam os problemas. Padilha tem pela frente a tarefa de
implantar uma nova forma de relacionamento com as ONGs e garantir que as verbas
não sejam consumidas sem que os indicadores de saúde melhorem. Por outro lado,
por causa da interrupção dos convênios há três meses, Muitas áreas ficaram com
a assistência prejudicada. É o que acontece entre os ianomâmi, de Roraima. Eles
aguardam que a equipe recém-contratada pela Funasa tome pé da situação para continuar
o atendimento. "Não se pode parar com o trabalho porque senão as doenças voltam",
disse a ISTOÉ o chefe Davi Ianomâmi.
Mas é na região do Vale do Javari, no noroeste da Amazônia, que se identifica
um quadro muito preocupante. Parte dos três mil índios da região enfrenta uma
grave epidemia de hepatite B, uma forma da doença que pode se tornar crônica.
Estão ameaçados matis, marubos e korubos, entre outros. A denúncia veio à tona
depois de um incidente envolvendo a Funasa, a Fundação Nacional do Índio (Funai),
vinculada ao Ministério da Justiça, e um grupo de médicos de Florianópolis que
participou da expedição Imagens do Javari, em abril. Interessados em atender
as populações indígenas, os médicos conseguiram patrocínio de 40 empresas. Montaram
um laboratório de última geração nos barcos cedidos pelo sertanista Sidney Possuelo,
da Funai, responsável pela proteção aos índios isolados da área. Vinte dias depois
de começar a subir o rio Ituí, a expedição foi interrompida por uma liminar da
Justiça Federal de Tabatinga, no Amazonas, sob a alegação de proteger os direitos
de imagem dos índios. Os índios, no entanto, deram seu consentimento aos expedicionários.
Conforme o autor da ação, o procurador da República Paulo Cézar Barata, também
faltava à expedição levar a bordo uma equipe com outros especialistas, como antropólogos
e epidemiologistas.
A razão de fundo para o impedimento parece estar na falta de entendimento da
Funasa com os expedicionários, entre eles o sertanista Possuelo. O órgão argumenta
que a expedição saiu sem a sua concordância. Porém, os organizadores afirmam
que houve quatro reuniões anteriores e a promessa de um protocolo de intenções
assegurando a colaboração da Funasa na iniciativa. O médico Sérgio Brincas, um
dos participantes do projeto, se diz frustrado. "Sempre deixamos claro que nossa
intenção era dar os resultados dos exames que faríamos aos órgãos competentes",
reclama. O procurador Barata diz que se dispõe a paralisar a ação se a Funai
assumir o compromisso de colaborar com a Funasa nas ações de saúde.
Imunidade - Independentemente do final dessa história, a expedição chamou a atenção
para um problema grave. Quando foi interrompida, já tinha realizado 413 exames,
que ficaram à disposição da Funasa. ISTOÉ teve acesso com exclusividade aos resultados.
Apenas 14% da população desenvolveu imunidade ao vírus da hepatite B a partir
de vacinação. "Trata-se de uma imunização pela vacina extremamente baixa para
uma área considerada endêmica, mas que se mostra numa situação de epidemia",
disse o infectologista Artur Timerman, que comentou os dados a pedido de ISTOÉ.
Outros 23% dos índios examinados desenvolveram imunidade natural ao vírus. Por
um lado, isso é bom. Indica que o organismo produziu anticorpos e eliminou o
vírus, tornando o corpo imune. Por outro, alerta para a grande quantidade de
pessoas na região que teve contato com o vírus da hepatite B. No total, cerca
de 37% dos habitantes da região das aldeias marubo e matis ao longo do Rio Ituí,
entre vacinados e naturalmente imunes, não correm risco de pegar a doença. Porém,
restam outros 55% de índios sem defesa contra o vírus.
A situação é ainda mais grave para os 8% dos índios que possuem o vírus da hepatite
B em sua forma crônica, ou seja, com risco de desenvolver formas graves que causem
danos como a cirrose. Isso pode demorar décadas ou ser apressado pela presença
de outros vírus, como o da hepatite Delta, ou por doenças como a malária e a
leptospirose. "A combinação do vírus B com o D com essas doenças e também com
alcoolismo pode desencadear uma forma fulminante da doença. Seus sintomas são
hemorragias, amarelecimento da pele, mal-estar e febre. Pode matar em poucos
dias. Por isso, é preciso investigar a presença do vírus Delta na região e acompanhar
os pacientes portadores da forma crônica da doença. Existem antivirais para esse
tratamento", esclarece Timerman. Nesses casos, pode desenhar-se um quadro conhecido
como síndrome da febre ictero-hemorrágica aguda. De acordo com o ecólogo Hilton
Nascimento, da ong Centro de Trabalho Indigenista, no Javari houve pelo menos
17 mortes desde 2003, causadas pela síndrome. "Se nada for feito, a expectativa
de vida dessa população será cada vez menor", diz Nascimento, autor de um dossiê sobre
o tema.
A Funasa planeja ações para melhorar esse quadro. No dia 25 deste mês, inicia-se
mais uma etapa de vacinação na área para ampliar a imunização contra a hepatite
B. "Enviaremos dois médicos para a região, vacinas e imunobiológicos", garantiu
Padilha. Apesar dos planos do governo, pessoas da região ouvidas por ISTOÉ dizem
que já passou da hora de os projetos saírem do papel. Segundo os relatos, faltam
a Funasa medicamentos, barcos e gasolina para atingir aldeias mais distantes
e enfrentar a epidemia. Enfim, é hora de os brancos se entenderem.