Fonte: Agropauta
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Cerrado não serve apenas para se produzir soja. Segunda maior formação vegetal do país, atrás apenas da Floresta Amazônica, o Cerrado apresenta uma extraordinária biodiversidade e não pode ser encarado apenas como uma fronteira agrícola. A região reúne 10 mil espécies de plantas diferentes (muitas delas de uso medicinal e alimentício), 759 espécies de aves de reproduzem por lá, além de 180 espécies de répteis e 195 de mamíferos, sem contar com o surpreendente número de insetos, como cupins, borboletas, abelhas e vespas.
São 2 milhões de km2 (área equivalente a 23% do território nacional) espalhados por 10 Estados. Mas apenas 20% dessa área ainda mantêm intacta sua vegetação nativa. Hoje, o Cerrado é o terceiro maior produtor de grãos do país e abriga cerca de 40% do rebanho bovino brasileiro.
A taxa de devastação da cobertura vegetal desse bioma é extremamente alta. Segundo um estudo da Conservation International do Brasil (CI), o equivalente a 2,6 campos de futebol desaparecem a cada minuto no Cerrado. Se o ritmo de destruição se mantiver, o Cerrado pode desaparecer do mapa até 2030. Alguns projetos, porém, contribuem para conter esta devastação. O Centro de Trabalho Indigenista (CTI), ONG de amparo e apoio aos povos indígenas fundada em 1979 por antropólogos e indigenistas, está assessorando um projeto de preservação da biodiversidade do cerrado em conjunto com o governo da Alemanha e da Noruega, além de diversas entidades internacionais sem fins lucrativos.
O Projeto Frutos do Cerrado, como foi batizado, garante uma renda mínima para os pequenos agricultores do Maranhão e Tocantins, onde o programa foi implantado. Os frutos nativos são coletados pelos índios e pequenos proprietários, que assim têm a oportunidade de ter uma fonte de renda. "Essas pessoas viviam de agricultura de subsistência antes", diz um dos coordenadores do projeto, Miguel Hecker. Participam da iniciativa cerca de 4.000 índios de cinco tribos, divididos em 14 aldeias. A eles se somam os 300 pequenos agricultores do Maranhão e Tocantins.
As entidades e países participantes criaram uma fábrica em Carolina, no Maranhão, para beneficiar as frutas colidas e vendê-las na forma de polpa congelada nos centros urbanos, com a marca FrutaSã. O produto pode ser encontrado em supermercados do norte e centro-oeste, e em breve estará também no sudeste. Já estão sendo comercializadas polpas de caju, juçara (o açaí do Maranhão, rico em ferro), bacuri, buriti, cajá, araçá, murici, mangaba e bacaba.
As frutas são colhidas em áreas de extrativistas e de plantio, com manejo orgânico e totalmente livre de agrotóxicos. Nem no beneficiamento na fábrica recebem aditivos ou conservantes.
O modelo estimula a implantação de culturas permanentes com as temporárias, criando áreas de roça que poderão se transformar em pomares e bosques. Assim, o cerrado fica protegido e ao mesmo tempo os habitantes do campo podem ter uma vida mais digna. "Também estamos demonstrando que o projeto é comercialmente viável", diz Hecker.